Como não poderia ser diferente, Solange nasceu ao meio dia de um sertão nordestino abrasante: um inferno. Não chorou, exceto quando teve fome. Já na primeira vez em que Madalena, sua mãe, a amamentou, deu-lhe a menina uma boa bicada no mamilo já desgastado pela alimentação das outras crias. Repetiu o ato religiosamente, até que Madá desenvolveu recusa em amamentá-la, fazendo-o somente muito depois quando já não mais se aguentavam os berros da menina ressoando na seca e tremendo as casas de taipa.
Cresceu ali, entre os cactos espinhentos e os bovinos bravos, sem medo deste ou daquele. Aos últimos, pelo contrário, infernizava; fazendo com que lhe escapulissem quando se aproximasse. Suas bonecas eram de osso, tais quais as de suas irmãs, brincavam todas juntas na terra quente. A esquelética boneca de Solange tinha que ser sempre a mais bonita em fantasia, embora vez por outra uma de suas irmãs teimavam para que as suas o fossem, o que muitas vezes acarretava em tragédia, pois Solange irritava-se e atirava a boneca nas irmãs, o que a esta altura já era uma arma – e não mais um brinquedo. Certa vez, inclusive, rasgou o supercílio da caçula – que nascera depois dela.
Era uma menina linda, de cabelos tão alvos que incandesciam sob os raios desconfortáveis de sol, um anjo.
Tempos bons viriam. Seu pai, homem empreendedor, vendeu tudo que a família possuía para investir em um caminhão de farinha de mandioca e vender na capital por quilo, iniciando uma espécie de pequeno negócio que poderia tornar-se algo muito rentável a certo prazo. Isto não fossem os fatores climáticos, com os quais o homem não contara. Ocorre que no translado do sertão para a capital caíra uma tempestade das que raramente se via naquelas bandas, e mesmo a farinha encoberta por uma lona negra improvisada não escapou de ser encharcada, ficando toda na estrada, como uma marcação de caminho para voltarem de onde vieram. Foi-se tudo: bichos, casa, móveis, dinheiro, sonhos. Tudo em farinha, em papa.
No entanto, não voltou. Talvez temendo não aguentar ver toda aquela desgraça esparramada no asfalto. Seguiu rumo à cidade ’grande‘, sem qualquer garantia. Lá chegando, aproveitou a lona vã que antes cobria a farinha e fez uma espécie de cabana para que a família se alojasse. Sobreviveram ali por determinado tempo, alimentando-se do pouco dinheiro que sobrou (no bolso), com carnes em conserva e... farinha. Esmola nunca pediram. Aos poucos as coisas foram progredindo, Luiz arrumava um bico aqui e outro acolá, que lhe rendiam alguns trocados, Madá lavava, passava, limpava e cozinhava em casas de família. Em um momento puderam alugar uma pequena casa, arrumaram empregos mais fixos e colocaram os filhos para exercerem atividades que rendessem algumas moedas.
Uma dessas atividades era vender canjicas que a mãe preparava em casa. E não havia um lugar definido para a venda, visto que eram orientados a perambularem por todos os lugares, até mesmo nos cabarés.
Em um puteiro, certa vez, Solange vendia canjicas, quando aproximou-se um homem de meia idade interessado no produto para comer e perguntou-lhe:
- Menina, esta canjica tem farinha?
- Não senhor, minha mãe não coloca farinha na mistura, é pura, é pura.
- Ah, que pena, então, pois gosto das que tem farinha.
- Pois eu estava mentindo, minha mãe coloca muita farinha, que é pra render mais. Só que se a gente diz tem gente que não compra.
- Pois diga a sua mãe pra ter vergonha na cara e parar de colocar farinha na merda da canjica, aquela velha safada.
Uma lágrima escorreu nos olhos da garota, mas não de inibição ou tristeza, senão de raiva.
Ela olhou o homem e disse em tão alto som que até mesmo os bêbados em orgasmo nos quartos fétidos ouviram:
- VAI TOMAR NO CU, SEU VELHO FI DA PUTA DO CARAI.
E além disso atirou-lhe no rosto uma tigela de canjica quente e saiu correndo, sem querer saber do resultado.
Continua.
Layrtthon Oliveira.
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