sábado, 9 de abril de 2011

Tempo de sangue frio


Me falas de amor. Mas todos os exemplos que me dá são frutos de utopias baratas, compradas em qualquer banca de jornal. São clichês; maneiras fáceis de falar para os outros que os sentimentos são inevitáveis, e que é impossível que um único ser viva só, sem ter uma musa que desperte sentimentos.
Me dizes que o amor é um algo fantástico, e que arrebata até o mais forte e o mais grosso. Falas que o seu poder é capaz de mover montanhas, e proporcionar que os corpos se unam em qualquer distância. Dizes até que só somos felizes porque somos capazes de amar.
Representas o amor como quem recita uma poesia, ressaltando suas características, dando ênfase a sua profundidade. Compara-a com a lua dos namorados, com contos famosos. Explica sua anatomia; como é, como será. Tal como ela age, a maneira que ele gosta, que ele surge. Olha nos meus olhos e fala do coração. Fala da alma.
Mostra a pureza do sentimento mais belo, do senhor das emoções. Das lágrimas caídas e do prazer enorme do que é amar. Abdicar do próprio corpo, unir-se a um êxtase universal, da verdade irrevogável que habita todos os seres inteligentes do universo. Pois aquele que vive, ama. Aponta a sociedade; dos casais felizes que vivem eternamente unidos em um só seio, em uma única paixão.
Dizes que o amor é único e é o real motivo da felicidade.
Teu rosto entristece quando percebes que permaneço o mesmo. Inerte, sentado, olhando para teus lábios e ouvindo tuas palavras. Em teu âmbito, uma dúvida sem nenhuma resposta. Como pode um ser viver com tal pensamento?
Ora, criança.
Se foi tu que me falastes isso tudo sobre o amor.
Certamente és tu que não sabe o que é amar.

 
Yerick Douglas

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Para fúteis e ignóbeis


Já passa da meia-noite. Lua cheia no céu.
O brilho é tão forte que os gatos pretos olham para cima, tentando descobrir qual o formato mais bizarro das nuvens. Cantarolam, que quase uivam. Um cão sarnento lambendo um bêbado dormindo, uma mariposa que que no escuro faz de suas asas olhos observadores. Voa uma coruja, pousando sobre a placa de um cemitério.
Boa sentença, descanse em paz.
Um gótico com uma garrafa de vinho, que corre ao ouvir o tremor de uma cova. As ideias em forma de monstros, que saem dos túmulos com aspecto podre, em decomposição. Criaturas fétidas, feias, macabras. São as ideias dos grandes poetas, dos grandes pensadores. Revoltados, erguem seus braços saindo do tormento eterno que genialmente criaram.
Ergue-se Augusto dos Anjos, levanta-te Álvares de Azevedo.
Sedentos por sangue, ainda surgem outros poetas e mais outros gênios. Surge Eienstein, Ghandi e até o próprio cristo.
A própria podridão da sociedade involuída, que insiste em comer restos comerciais, esquecendo dos valores morais que tanto tempo atrás foram ensinados. O valor da moral da sociedade, o verdadeiro significado das emoções e dos sentimentos. Até a paixão se vê consumida pelas enfermidades tóxicas e contagiosas da hipocrisia e da indiferença.
Porque ser alguém não mais requer índole e perspectiva. Se resume a bens materiais e a condições financeiras. Sua dignidade está entrelaçada com o automóvel que você dirige e com que roupas você sai.
Leitura mesmo, só de ignóbeis que escrevem coisas óbvias, sendo uma afronta àqueles que dedicaram suas vidas em prol de uma bela poesia. Tal foram as gerações que inspiraram os escritores a depositarem sobre o papel as ânsias da morte e o desejo do amor verdadeiro; que naquela mesma época já estava infectada.
Modernização, balela.
Criar ficou tão fácil que já é tão difícil escrever algo diferente.
Surgem as burguesas do século vinte e um, escolhendo seus homens com base na ínfima inteligência que lhe restam dos anos e anos em escolas particulares e dos conselhos de classe.
E desperta a morte do seu sono profundo. Com sua foice afiada, seu manto negro e os cabelos lisos e negros. Olhos flamejantes, pele pálida. Enquanto olha ao seu redor, vê por quanto tempo permaneceu adormecida e permitiu que as ideias tornassem-se as bestas apocalípticas. Feito zumbis, ansiosos por degenarar cérebros em seus estômagos revividos.
Vai. Caça aqueles que mancharam os vossos nomes e permitiram que a nobreza de um homem fosse resumida apenas a riquezas. Extermina o materialismo que impera sobre as cabeças fúteis e ignorantes da maior parte da sociedade, que mal sabe o significado da palavra evolução. Corrói as vidas tolas de tais infames, lava a tua alma, vinga os grandes homens que existiram nessa coisa que chamamos de vida.
Maldito cenário.
Antes, servia de inspiração para tantos que desabrochavam suas mágoas e lágrimas. Com medo da tuberculose, com medo da pós-vida.
E hoje, com cura para tal doença, redijo um texto para desabafar o ódio que sinto da falta de caráter, de criatividade e da estúpida futilidade feminina que a pouco tempo experimentei.
Ah, que saudades dos tempos de outrora.

Yerick Douglas