quinta-feira, 14 de julho de 2011

Poesia à beira da estrada


Que somos perante ao verde que cobre os nossos olhos?
Muitos acham-se superiores somente por dominarem a reprodução de conhecimento acadêmico; da química moderna às leis físicas e suas atribuições. Fazendo ciência e suas réplicas, dando explicações ao inexplicável, a temível força das coisas.
Estrada distante, caminho turbulento. Ao homem que vai lá longe empurrar carroças na feira, para garantir o sustento da família. Casas humildes de conteúdo iningualável. Sento-me em uma cadeira, ergo um copo da mais branca bebida e dou um gole. Voam os pensamentos em conversas bucólicas.
Gigantismo de superioridade nos dão os que achamos inferiores. Vasta moral, felicidade extrema. Pensava eu que os mais fortes eram aqueles que dominavam o conhecimento da verdade, em suas minunciosidades de declarações e dissertações.
Que tolo.
A mais pura sabedoria se encontra naquela que acorda ao nascer do sol, banhando-se da mais pura luz; prepara o café com a força da terra e os vastos sentimentos; tão vastos como a terra que a gerou. Filhos tem de montes, pois o amor é eterno; exatamente como a fazenda que ela trabalha. Trabalho braçal, pois o conhecimento é do doutor.
Que nunca trabalhou [antes dos nove], senhor.
Que nunca apanhou [na rua], senhor.
Que sempre teve tudo na mão.
E agora visualiza a dimensão das coisas e entende o seu lugar. Teve tantas oportunidades de aprender a forma mais natural, mas preferiu os papéis e as evoluções. Drogou-se das ervas, foi a luta manicomial. Levantou cartazes de protesto e agiu exatamente como tantos outros alienados dessa vida medíocre e passageira.
Reclamou em casa da falta de dinheiro, amaldiçoou os familiares e fugiu de casa. Bebeu em bares, conheceu as garotas. Desvirtuou-se tanto das origens que nem se sabe mais se pode ser chamado de original.
E lá longe, lá na estrada ouve o poeta.
Que recita seu repente com a inteligência que Deus lhe deu; como o bom cantador de cordeu que relata os fatos da vida de maneira mais explícita possível. Vai o amor romântico, de palavras bonitas, imitar a carência de sentimentos reais; isente de qualquer tipo de podridão ou corrupção.
É o homem da roça, é a vida da terra.
A formiga que empurra mais de cinquenta vezes o peso da cidade todo dia; o besouro que voa pelo céu e deseja o melhor, dando aos outros aquilo que não tem. O zunir de asas do cárcara, que rasga a carne do hipócrita e come, por mais dura que seja.
É o calango que não entende o que vê, mas sabe que viu.
É o sertão, a terra boa. A terra prometida.
O copo desce e minha garganta arde. Minha vida flui pelos meus olhos como se eu estivesse morto. A viola continua naquela estrada de barro, que vai de um canto ao outro, levando mato de norte a sul, de leste a oeste.
Povo abençoado, moralizado. Mas que tem tão pouca alfabetização...
Escrevo, nem sei se eles vão ler.
Mas com certeza vão sentir.

Um comentário:

  1. Poorra! Muito bom esse texto. Eu senti a mesma coisa mas não soube traduzir em palavras tão bem. Ótimo relato de uma situação vivida por nós recentemete. Parabéns!

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