quinta-feira, 24 de março de 2011

Fogo, calor e energia


Queima, não é?
Se lentamente você passar sua mão sobre essa chama que emana, desestruturando a parte física, ela prova que é capaz de arder tua pele e incendiar todo o resto do seu corpo.
A ferida se abre, arde. Não importa o quanto de água gelada se faça presente naquela vermelhidão absoluta, ela continuará ardendo, até que lentamente se faça o processo de recuperação, onde verdadeiramente você para de sentir dor.
O grande problema é que as queimaduras deixam marcas. Elas estão exatamente ali para provar que não importa o quanto você seja forte, as cicatrizes sempre aparecem.
Os fortes, no entanto, são capazes de resistir a maiores queimaduras, e de permanacer mais tempo ao lado do calor, da fogueira. Sentindo aquela energia vibrante que nos aquece em dia de frio e nos fazem sentir o agradável sabor dos alimentos.
Dizem que quem brinca com fogo, acaba se queimando.
Quem brinda às emoções, tendem a encontrar o mesmo rumo.
Não importa o quão forte você seja, você ainda depende delas, todos os dias, para se sentir vivo e confortável nesse inverno gélido. Seus amigos, sua família, seus amores.
É nesse aspecto que se encaixa aquela expressão.
Frio.
A ausência do calor, da vibração. A falta completa das chamas que envolvem o nosso coração e nos fazem permanecer viventes, sorridentes.
No entanto, tantos se esquecem que é muito mais fácil e rápido morrer queimado do que congelado. Os gases emanados de uma combustão são tão mais precisos para invadir teus pulmões do que a falta de calor para congelar teus fluidos.
Um homem preparado pode facilmente resistir a baixíssimas temperaturas; mas ele jamais será capaz de conter um incêndio.
Ele pode mergulhar em uma piscina gelada, mas ele nunca será capaz de desfrutar o magma de um vulcão.
E mesmo que tente, por mais que tente, jamais entenderá os movimentos de vai e vem que são projetados pelas fagulhas laranjas emanadas de uma fogueira.
Vê? É tão fácil entender o frio.
As partículas aglomeradas, todas unidas.
O processo de condensação, de calma, tranquilidade. Poucas ondas vibratórias, poucos conflitos, pouca energia.
No entanto, muita disciplina, muita serenidade.
Enquanto o sol aquece nossos corpos e proporciona a vida na terra, ele queima, nos causa dor e desconforto. Nossa biologia é forçada a transpirar para que continuemos vivos.
E é essa a atribuição que damos aos sentimentos.
A lua permanece ativa, iluminando a noite, inspirando as mentes pensantes que passam horas observando as estrelas e seus bilhos adjacentes.
Paradoxal, não é?
Conscientemente atribuímos ao que sentimos um elemento incoerente, incerto e da qual não temos nenhum controle sobre sua parte física.
O fogo, o que separa, o que queima. Nos causa sofrimento, angústia, desapontamento. Nos faz sofrer. Suamos lágrimas para acalmar o ódio, o fervor, o quente.
A ira. A separação.
Pois o fogo separa, desune. Desgraça.
Todavia.
Calmamente, muito calmamente ponho um agasalho, pois é tudo o que eu preciso para superar o frio.
E nele aproveito meus excelentes momentos de silêncio e de solidão.


Yerick Douglas

sábado, 12 de março de 2011

Perda de consciência


São já quase seis quando chego. O sol nasce no horizonte, abrindo margens para a mais diversa imaginação. Noite longa, como sempre fora; numa mesa exacerbada das mais variadas bebidas, conversas e indagações. O normal sucede o incomum, quando uma das mentes recusa-se a embriagar-se e ver o irreal. A sobriedade.
Perdendo a visão cada vez mais, pois as figuras tornam-se nítidas e coloridas. As estrelas continuam brilhando, sem oscilar suas variações de luz e de intensidade. A negritude da noite assusta, as nuvens já nem existem no céu, enquanto a lâmpada continua vibrando suas frequências e iluminando o ambiente.
A audição some com o passar das horas, as conversas vão se tornando mais e mais claras em certos argumentos. Palavras saem a boca sem nenhum pudor, os votos de amizade eterna descontraem um ambiente solitário e triste. Vozes rindo de piadas infames, amores mal resolvidos. A mesa enche-se de lágrimas, após um repentino reencontro de paixões arrebatadoras. Chora-se por elas, riem-se com eles.
Aos céus sobem a fumaça dos cigarros, que acompanham a calada da madrugada. Tal como nuvens, erguem-se nas mais diversas formas, assumindo posturas já nem mais processadas pelos olhos baixos e cansados dos ébrios. Edificam-se poemas improvisados, farejam-se as cervejas e afins derrubados sobre a mesa. As mãos tateiam os copos, os paladares já extintos.
Nasce então a consciência, há anos perdida. Perde-se o anseio, a fome, a intriga. Uma mente tranquila em uma noite agonizante. A solidão nem mais bate a porta e pede morada, não existem mais vozes com lições de moral, nem parentes ansiosos pelo retorno do embriagado.
Os cães, por Deus, acordam cedo. Marcam seus territórios com afinco a procura de cadelas. Pássaros batem asas e os insetos existem! Há natureza no mundo contemporâneo, há pessoas que despertam matinamente em busca da labuta diária.
Existe vida lá fora.
Em segundos, o cérebro descansa e já não acontece mais o sono. São quandos os raios aquecem a cabeça e afirmam que já é dia, que outro período começou. Irmãos se abraçam com mais gritos de felicidade, agradecendo a Baco por mais uma noite ébria e bem resolvida.
Fortalecem-se as amizades, são vivas à vida.
O pneu rasga o asfato e as portas se batem.
Passam horas, muitas horas, até que a sede ataca o inocente; até que a tosse tome conta do pulmão.
Mas não.
Resta um que pode, sem mais nem menos, presenciar tudo o que ocorrera durante o tempo em que esteve desmaiado.
Ainda houve um que pode perder-se e resguardar-se na sua consciência e sentir medo do escuro.

Yerick Douglas


quarta-feira, 9 de março de 2011

Se eu morresse amanhã

Se eu morresse amanhã, não gostaria de ver uma lágrima despencar de um rosto, por mais triste que fosse [Lágrimas demonstram sofrimento].
Se eu morresse amanhã, não queria receber flores, por mais variadas cores que estas possuíssem [As flores cheiram à morte].
Se eu morresse amanhã, detestaria ver luzes sendo emanadas de velas [As luzes me acordariam do sono profundo].
Se eu morresse amanhã, por mais trágico que fosse o meu desencarne, odiaria ver um padre me rezar [Minha crença é outra].
Se eu morresse amanhã, ao invés de se importarem comigo, se importem com aquelas pessoas que estão presentes [São elas que precisam de ajuda].
Não me importaria com a vida se estivesse morto. E nem gostaria que muitas pessoas deixassem de viver o restante de suas experiências em minha função. Poucos se lembram de que esse é o nosso maravilhoso fim, e reinício de um novo ciclo, uma nova travessia.
O orgulho que vai para o túmulo é a mesma hipocrisia que é depositada sobre ele. Tanto sofrimento, tanta amargura. As histórias vividas, os projetos concluídos, os objetivos cumpridos. O importante não é a profundidade da sua cova, e sim o quanto você chegou o mais próximo do céu.
Se eu morresse amanhã, que consolassem a minha mãe [Ela jamais suportaria].
Se eu morresse amanhã, louvassem o meu pai [Meu espelho, meu mentor].
Se eu morresse amanhã, ensinassem ao meu irmão a importância de todas as coisas [Ele ainda é uma criança].
Se eu morresse amanhã, que copos fossem brindados em homenagem aos meus amigos [Minhas partes].
Se eu morresse amanhã, um abraço fraterno no meu avô. [Eu nunca pude dizer o quanto o amo].
Nossos alicerces são as pessoas as quais conquistamos. São todos aqueles que dariam a vida por nós, da mesma forma que sem hesitar, faríamos o mesmo por eles. De nada adianta ser lembrado durante o seu funeral, se você nunca foi lembrado enquanto tinha o direito de ir e vir.
O caixão é apenas um símbolo, ele não será a sua nova casa. Tanto faz se ele será de madeira, ferro ou ouro. O importante é a consciência, e em quantas partes suas emoções foram divididas. O materialismo terreno jamais irá substituir o amor fraterno, celestial.
Se eu morresse amanhã, guardassem meus livros [Eles ainda serão lidos].
Se eu morresse amanhã, alimentassem os meus animais [Eles ainda precisam de um dono].
Se eu morresse amanhã, bebessem minhas cervejas [Eu não preciso mais delas]. De preferência, aqui em casa [A tradição deve ser mantida], e com os meus amigos [O bar precisa ser aberto].
Se eu morresse amanhã, ocupassem o meu quarto [Meu mundo são minhas lembranças].
Se eu morresse amanhã, doassem as minhas roupas [Elas jamais me esquentarão].
Triste e levemente me despederia de todas as grandes felicidades que eu tive nesta passagem. Agradeceria a Deus e imploraria para passar novamente por todas as mesmas experiências, que foram únicas e eternas. Me encontraria com tantos entes queridos, me tornaria um deles.
Mas quando eu for, não chorem. Peço, não chorem. Riam. Riam bastante para que eu possa ouvir, de onde quer que eu estiver, as graças e as felicidades desse povo maravilhoso. Porque um dia eu rirei da mesma forma e com a mesma intensidade. O céu é vasto o bastante para tantos que vem e vão, detestaria que a  angústia da perda fosse depositada logo sobre mim.
Se eu morresse amanhã, não seria castigo [Seria a vida].
Se eu morresse amanhã, estaria feliz [Como estou todos os dias].
Se eu morresse amanhã, lembrem-se de mim. Porque eu jamais esquecerei de vocês.

Yerick Douglas