São já quase seis quando chego. O sol nasce no horizonte, abrindo margens para a mais diversa imaginação. Noite longa, como sempre fora; numa mesa exacerbada das mais variadas bebidas, conversas e indagações. O normal sucede o incomum, quando uma das mentes recusa-se a embriagar-se e ver o irreal. A sobriedade.
Perdendo a visão cada vez mais, pois as figuras tornam-se nítidas e coloridas. As estrelas continuam brilhando, sem oscilar suas variações de luz e de intensidade. A negritude da noite assusta, as nuvens já nem existem no céu, enquanto a lâmpada continua vibrando suas frequências e iluminando o ambiente.
A audição some com o passar das horas, as conversas vão se tornando mais e mais claras em certos argumentos. Palavras saem a boca sem nenhum pudor, os votos de amizade eterna descontraem um ambiente solitário e triste. Vozes rindo de piadas infames, amores mal resolvidos. A mesa enche-se de lágrimas, após um repentino reencontro de paixões arrebatadoras. Chora-se por elas, riem-se com eles.
Aos céus sobem a fumaça dos cigarros, que acompanham a calada da madrugada. Tal como nuvens, erguem-se nas mais diversas formas, assumindo posturas já nem mais processadas pelos olhos baixos e cansados dos ébrios. Edificam-se poemas improvisados, farejam-se as cervejas e afins derrubados sobre a mesa. As mãos tateiam os copos, os paladares já extintos.
Nasce então a consciência, há anos perdida. Perde-se o anseio, a fome, a intriga. Uma mente tranquila em uma noite agonizante. A solidão nem mais bate a porta e pede morada, não existem mais vozes com lições de moral, nem parentes ansiosos pelo retorno do embriagado.
Os cães, por Deus, acordam cedo. Marcam seus territórios com afinco a procura de cadelas. Pássaros batem asas e os insetos existem! Há natureza no mundo contemporâneo, há pessoas que despertam matinamente em busca da labuta diária.
Existe vida lá fora.
Em segundos, o cérebro descansa e já não acontece mais o sono. São quandos os raios aquecem a cabeça e afirmam que já é dia, que outro período começou. Irmãos se abraçam com mais gritos de felicidade, agradecendo a Baco por mais uma noite ébria e bem resolvida.
Fortalecem-se as amizades, são vivas à vida.
O pneu rasga o asfato e as portas se batem.
Passam horas, muitas horas, até que a sede ataca o inocente; até que a tosse tome conta do pulmão.
Mas não.
Resta um que pode, sem mais nem menos, presenciar tudo o que ocorrera durante o tempo em que esteve desmaiado.
Ainda houve um que pode perder-se e resguardar-se na sua consciência e sentir medo do escuro.
Yerick Douglas
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