domingo, 7 de agosto de 2011

Imagine



São os passos apressados que musicam a noite. As estrelas do céu são os pontos brilhantes dos edifícios, com suas assertivas para alertar as aves de metal que sobrevoam a metrópole. Dos bueiros, gases fétidos acompanham os ruídos dos ratos. São vapores que sobem as narinas, impregnando de nojo e escárnio a sua face.
Chaves na fechadura com bastante velocidade. Olhou para ambos os lados ao entrar no que se podia chamar de prédio. Nunca se sabe quando está sendo acompanhado. Subiu as escadas com mais velocidade e abriu a porta do seu quarto. Jogou a mochila sobre o sofá e foi para a cozinha. Olhou para as cervejas, mas preferiu um copo com água gelada. Entrou no banheiro com a face entristecida de mais um dia de trabalho. Já não aguentava mais aquela vida; estava perdendo o ápice da sua juventude trabalhando como estagiário.
Ao menos o banho era quente. O líquido passava pelo seu rosto como se lavasse a sua alma. Tão longe de casa, tão longe da família, dos amigos e da sua esperança. Tomou um susto ao ouvir o barulho ensurdecedor de uma batida logo em frente. A toalha enxugava o rosto no seu quarto com odor de morfo.
Pôs um calção. Já era tarde, seu corpo estava cansado. Refletiu sobre o seu dia e sobre as contas que tinha para pagar. Tão pouco dinheiro, tão pouca felicidade. Por onde andava durante todo esse tempo? Já não aguentava mais está perdido de si mesmo. Vivia, mas não para si e sim para os outros. Sua vida limitava-se a ganhar alguns trocados e aproveitar a parte suja. Tudo artificial. Tudo tão pronto, tão industrial.
Haviam putas em frente a sua casa. Haviam drogas, haviam carros e haviam prédios. Muitos prédios. Já não sabia mais a cor da lua, pois o cinza das uzinas cobriam a imensidão dos seus olhos.
Deitou-se na cama.
Olhou para o passado. Viu tudo e calou-se.
Seus pensamentos subiram até a torre mais alta e ele observou a cidade de cima. Com seus veículos trafegando pelas ruas incessantemente. Com os sons e as luzes. As gargalhadas em bares, portas abrindo-se e fechando. O menino pedindo esmola na rua e o ladrão correndo na esquina com um pedaço de pão por entre os seus dedos. Política, corrupção, armas, guerras, violência, sexo, drogas, álcool, cigarros... ARGH!
Nunca foi bom mesmo com essa história de Deus.
E foi subindo mais alto, mais alto e mais alto.
Até que já não via as cidades, e sim aquele imenso globo pairando no espaço. No meio do preto, no meio do nada. Sim, as viu. Elas mesmas. As estrelas que tanto não visualizava. Estavam todas ali, quietas, harmônicas, perfeitas.
As nuvens indo de um lado para o outro, como naqueles programas de meteorologia. Parecia tudo tão simples e ao mesmo tempo tão bonito. Virou-se e ela também estava lá. Com suas crateras exploradas, com uma bandeira balançando sem vento algum. Tudo parecia tão calmo. Somente o silêncio tomava conta de si.
Pela primeira vez, ouviu a própria voz.
Mas o seu desejo era de ir mais longe e cada vez mais longe.
Foi quando um brilho se fez. Suas chamas altas e imponentes, seu corpo milhões de vezes maior do que o da Terra. Alimentando de calor e energia os seus subordinados. Eis o sol, o astro que abençoa esse sistema pobre com uma raça tão fraca e estúpida.
Olhou para um lado e... mais nada? Somente isso. A massa negra, o sol e os outros astros? A Terra?
Imediatamente foi transportado para um outro lugar. Chocou-se ao ver uma outra esfera. Tão azul o quanto o nosso planeta, tão pequeno e isolado como esse.
Entrou.
Pessoas, como nós. Verde, como o nosso.
Mas ao invés de buzinas e asfalto, haviam torres feitas de um material enobrecido. Mal sabia identificar o que era aquilo e nem porque as pessoas estavam tão alegres e sorridentes. A vida era harmônica e não havia nada que pudesse corromper a inocência desse povo. Era tudo tão belo e perfeito.
Liderança, cumplicidade, ferramentas, união, paz, amor, saúde, água, ar... AH!
Não haviam mais as depreciações da humanidade e nem dos transtornos que nos fazem sofrer. Desejou parar ali, desejou morar ali por toda a eternidade. Mas algo o impedia. Tentou tocar em alguém, tentou pisar naquele solo sagrado. Mas não conseguia.
Por que, Deus? Porque somos tão miseráveis e esse povo é tão maravilhoso?
E tentou e tentou. Até que desistiu e apenas observou. Tentou aprender o máximo com aquela gente para voltar para o seu lar e ensinar para o povo sem graça do seu planeta.
Veio um homem todo de branco.
Sorriu, balançou a cabeça para o lado e para o outro.
Eu entendi. Por quê?
Ele apenas falou que eu não estava pronto. Falou de um tal de progresso...
Lembrou-me uma música.

“Imagine all the people            (Imagine todas as pessoas)
Living life in peace                   (Vivendo em paz)
You may say                           (Você pode dizer)
I'm a dreamer                         (Que eu sou um sonhador)
But I'm not the only one        (Mas eu não sou o único)
I hope some day                     (Eu espero que um dia)
You'll join us                            (Você se junte a nós)
And the world will be as one (...)”        (E o mundo será um só)



Yerick Douglas

2 comentários:

  1. Seu texto é muito profundo e muito bonito. Muitas vezes nos sentimos assim como este jovem fazendo uma viagem ao nosso interior e ao mundo o qual nos é permitido conhecer; que bom seria se realmente a nossa realidade fosse assim como este universo que nos acolhe(livre, harmônico, alegre,independente)mas,quando nos deparamos com a nossa vida, percebemos que este mundo o qual gostaríamos de viver é totalmente contraditório ao que realmente vivemos(egoísta,falso e hipócrita). Parabéns pelo texto e pelo seu desprendimento em ver o universo com tanta beleza e magia.

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