quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Dama da noite


Sozinho em casa a noite bate a porta. Quem será que tão tarde iria me fazer uma visita? Logo eu que a tanto não sei o que é uma mão para afagar-me e enxugar as lágrimas.
É ela. A dama que todas as noites aparece sem avisar, em momentos menos oportunos. Me admirando secretamente, testanto as minhas capacidades; observando cada movimento, como se esperasse o momento certo para me seduzir ainda mais.
Não permito que ela entre. Mas sua beleza é fatal e encantadora. Nenhum homem é capaz de resistir ao charme inocente de uma bela senhorita. Cautelosamente atravessa a porta, passando pelo meu lado, provocando os meus instintos.
O cheiro das rosas roxas da perdição. Cabelos negros escorridos pelas costas. É ela. A mulher que penetrará no meu íntimo, fazendo-me chorar e pedir perdão por crimes que nem mesmo eu nunca cometi.  Senta no sofá, pede uma bebida. Será com ela que irei compartilhar os meu segredos essa noite.
Whisky? Sim, claro. Ela bebe bastante. Seu corpo é perfeito, sua mente é magnífica. Os Deuses certamente erraram no instante em que foram criá-la. Atribuíram muita sedução a um ser que é responsável por nos tentar, logo a nós, seres tão fracos.
A noite é longa, meus pensamentos não param. Meu desejo é de beijá-la, tê-la em meus braços. Mas é impossível. Esta noite, ela quem decide as regras do jogo. Beba um pouco mais, estou sentindo você diferente. Talvez precise relaxar mais um pouco. Megera. Sabe que é capaz de comandar qualquer homem, mas mesmo assim brinca com os sentimentos, testando o poder que possui.
 Imagino quando será o dia que serei capaz de conquistá-la. Talvez esse dia nunca aconteça. Certamente. Existem tantos outros que já tentaram em vão. A senhora das emoções irá finalmente reinar à minha vida, dominando-me por completo. Fazendo-me de eterno escravo das suas loucuras mais assustadoras.
O sono bate. Não durma, fique aqui mais um pouco. Por que ouço as palavras dessa louca? Sei que isso não passa de mais uma artifício para me transformar em um animal domesticado. Tento resistir. Improvável. Ela é forte demais, sua presença me acalma.
Os segundos correm. Minutos acompanham. O horas se passam. Adormeci e não pude pedir a musa dos meus sonhos o beijo de despedida. O fim desse lugar imundo no qual estou imerso a tanto tempo sem haver lugar para onde escapar.
A saudade que possuo é essa princesa da solidão. Rainha dos sentimentos mais obscuros e promíscuos. Dominadora das sete chaves do coração de qualquer ser vivo pensante, falante, vivente.
Abro a garrafa. Mais uma dose. Olhando para cima lembro-me da minha vida. Dos meus sonhos, dos meus planos, das mulheres que amei. Tarde demais, tudo saiu fora do que imaginei. No final, estava sempre certo, as coisas nunca acontecem da maneira que gostaríamos.
O que me sobrou? Nada. Apenas ela. A solidão, a saudade e o devaneio obscuro amadurecido na minha mente, na minha vida. Um gole. Basta apenas esperar que o tempo corra. E ele irá fazê-lo; pois como todos, é cúmplice da dama da noite.
Vou ficar e esperar. Talvez ela volte para me fazer uma visita ainda esta noite. Caso contrário, ficarei tranquilo. Certamente chegará no outro dia, como todas as vezes, para fazer-me infeliz e afogar-me nas minhas próprias ondas de sentimentos.

Yerick Douglas

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Se todos fossemos


Acho que o pensamento de que algo nunca irá nos acontecer sempre vem a cabeça de todas as pessoas. Não sabemos por que, mas na maioria das vezes acreditamos sermos especiais, com características que nos diferenciam de todas as pessoas da terra. De todas as culturas.
A tendência de catastrofizar os maus acontecimentos, para que sejamos sempre culpados e vítimas, afim de diminuir nossas frustrações. A vontade de aumentar em milhares de vezes um sentimento gostoso, para que todas as outras pessoas possam ver o quanto somos felizes.
E especiais.
Quando na verdade, nada temos de especial. Os desapontamentos não passarão de mágoas do passado e de risos no futuro. Vivemos um momento ruim e logo imaginamos que aquele é o maior inferno pelo qual estamos vivenciando. Em poucos minutos uma outra emoção surge, um fato acontece, a dor desaparece.
E sorrimos.
Acho que todos somos hipócritas, afinal. Ou isso, ou somos todos grande idiotas em imaginar que somos diferentes. Quando na verdade, somos todos iguais. Mas não é tão difícil raciocinar sobre isso. Basta olhar dentro dos olhos de todas as pessoas que nos acompanham, que são nossos amigos, familiares e amantes. Observem os ares maduros, o semblante sério de quem já enfrentou todos os problemas da vida.
Todos eles estão bem, estão vivos; e enquanto alguns poucos maximizam os seus problemas por um breve fator emocional, os mais antigos sabem que aquilo logo passará, e será alvo de piadas e brincadeiras. Da mesma forma que as anedotas são contadas pelas bocas sujas em bares fedidos.
Gargalhadas inconsequentes, risos para conterem lágrimas.
O fato de um fato ser superado não signfica que ele não tenha doído. Talvez não o tanto que você falou que doeu, para aumentar sua angústia e ter motivos de sobra para justificar suas falhas. Apenas o observe como sendo mais uma experiência vivida, mais uma barreira sendo superada, mais um leão sendo morto diariamente.
É daí que também temos o objetivo de atribuir características especiais às pessoas que mais amamos. Visualizamos um certo grau de perfeição, descartamos os defeitos e acolhemos somente as qualidades.
Por que?
Porque se assim não o fosse, como seríamos capazes de conviver com tantas imperfeições? Prestaríamos mais atenção nos detalhes que compõem o todo do que a parte maior que nos interessa. Tentamos, segundo por segundo, tirar das nossas mentes a imagem do diferente, do surreal, para colocar na cabeça que aquela pessoa foi feita para nós.
O grande amor da nossa vida.
Basta só um olhar mais minuncioso, basta apenas passar o pente fino para ver que, na verdade, ela é totalmente diferente do que sempre imaginamos que ela fosse. E é nesse momento que surge a dor.
A crise.
A negação dos próprios sentimentos, a vontade de rir, de gritar, de chorar, de cair em prantos, de molhar ombros. Ou apenas engolir em seco e fechar-se mais uma vez dentro de uma concha áspera e cheia de espinhos. Retornar às origens, aceitar ser quem você é, ou ser o ser que fizeram com você. No mais, o importante mesmo é pensar que tudo não passou de um sonho e que a turbulência já passou. O pior já se foi.
Esperar o tempo certo.
E depois disso, se abrir mais uma vez. Dessa vez, na medida certa. Mesmo sabendo que não existe medida certa, que ela é impossível.
É só acreditar que no fundo não temos nada de especial, que acontece com todo mundo.
Chato demais.
Queria mesmo que todos fossemos especiais.

Yerick Douglas

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Lágrimas e Semelhanças


Meia-noite.
Tanto tanto longe dele, do seu sorriso, da sua face enrrugada.
Aos doze anos de idade, e logo nesse dia, nessa data tão especial e que se comemora tantas e tantas vezes. O seu dia, seu aniversário, seu triunfo.
Não aguentou a pressão, a tristeza. Se recolheu cedo, contrariando sua mãe; que a tanto havia preparado uma festa surpresa e convidado todos os seus grandes amigos. Uma torta, salgados, refrigerantes.
Mas quem se importava, quando o melhor presente era mais uma vez ver seus olhos verdes reluzentes, sua barba mal feita, sua barriga estufada para frente. Aquela forma delicada de falar, e sua incrível capacidade de não se preocupar com nada. Ou com quase nada.
Deitou-se. Agarrou ao travesseiro.
Lágrimas, saudade.
Todos já haviam ido embora há muito tempo. Estava só desde então. Desde que aquele triste acidente pôs em um túmulo o corpo de dois homens. O seu e o dele.
Virou-se. Olhou para o teto, começando a se lembrar de todos os bons momentos que tiveram passados juntos. Das viagens, dos risos, das brincadeiras. Abriu um largo sorriso, vendo aquele filme nostálgico passar diante dos seus olhos.
Gargalhou mais uma vez, como se ele estivesse presente, ajudando-o a lembrar de momentos em que sua mente foi capaz de esquecer. Como se estivesse apontando certos detalhes, certos pontos específicos que faria aquele momento ser ainda mais especial.
Ele não estava ali, nunca mais estará.
Um quarto vazio como seu corpo sem a sua alma. Sua semelhança.
Seu pai.
Virou-se lateralmente e tomou um susto. Como se algo estivesse invadindo a sua privacidade, logo na quina do seu ambiente de repouso.
Deve ter sido somente impressão. Foi ao interruptor e ligou a luz.
Nada.
O cérebro nos faz imaginar situações impossíveis de acontecer, como se por um instante fossemos capazes de imaginar e visualizar o espírito de um ente querido. Nossa vontade é tanta que somos capazes de criar aquilo que queremos ver, e dessa forma, descansar felizes e tranquilos.
Por que choras, meu filho?
Rapidamente sentou na cama e ligou a luz. Um susto. De onde poderia ter vindo aquela voz. O quarto contava somente com a sua presença, de onde poderia ter saído aquele som?
Não.
Mais uma vez percebeu que era algo de sua cabeça. Mais uma criação imaginária.
Achou mesmo que iria te abandonar?
Assustou-se de vez, quase entrou em prantos.
Acalma-te. Sempre estive ao seu lado, recitando ao seu ouvido. Por que logo agora deixará de acreditar que sempre estive com ti?
Ligou a luz, não havia ninguém.
“Pai”?
Quem mais seria?
As lágrimas vinham aos seus olhos da mesma forma que as ondas surgem em um momento tortuoso de tempestade.
“Pai, é o senhor”?
Claro, meu filho. Sim, sou eu. Aqui estou, ao seu lado, falando, conversando, mostrando o quanto estou feliz por você ter crescido tanto. Por Deus, veja só o homem que você está se tornando. Doze anos de existência, doze anos de experiência.
“Por que o senhor não aparece, pai? Por que o senhor não permite que eu te veja?”
Não, isso tinha que ser coisa da sua cabeça. Era óbvio, era real. Mas tinha que ser uma criação mental, algo explicável, justificável.
Como não estou aparecendo para você filho, se estou exatamente na sua frente como estive a tantos anos no passado? Estou bem aqui, olhando para você, contemplando esse seu rosto lindo e parecido comigo.
“Então por que não te vejo?”
Porque sua racionalidade ainda está impedindo que esse momento se torne real.
Fechou suas pálpebras. Dois filetes de lágrimas escorreram pelo seu rosto. Mentalizou. Desejou de todas as maneiras ver o seu pai mais uma vez. Repetia constantemente que aquilo era real, que tinha que ser real. Sua vontade passou a transmitir suas vibrações.
Sentiu algo diferente.
Era como se aquele momento pudesse transpassar o limite do imaginável. A barreira inquebrável da pura e simples racionalidade. Era escrito em seu livro sagrado que cabe somente aos homens se relacionarem com os próprios homens. Mas a tanto o seu genitor havia partido. Como era possível estabelecer uma relação além túmulo?
Quem se importa com o que está escrito em um livro?
Abriu seus olhos e chorou.
Em forma de luz branca, parado em pé em frente a cama estava seu pai. Vestido com uma camisa de botão branca, de braços abertos. Seu rosto era o mesmo, impecável. Totalmente diferente do rosto maquiado encontrado no sepulcro de madeira. Estava novo, revigorado. Seus olhos permaneciam verdes, sua barba, mal-feita.
Por que não dá um abraço em seu pai?
O garoto correu ao seu encontro, abraçou-o mais uma vez. Chorou. Seu pedido havia sido concretizado. Uma despedida, uma forma real de encontrar-se com seu exemplo, sua semelhança. Separou-se, depois de um longo tempo. Olhou seu rosto, dessa vez acreditando que aquilo era tangível, era sólido.
Era real.
“Como isso é possível? O senhor a tanto se foi. Como posso estar falando com o senhor nesse momento, agora?”
É possível porque você quer que seja possível. É cabível porque obtive a permissão que necessitava para visitá-lo.
“Pai, quantas felicidades de estar aqui. O quanto eu pedi a Deus para que você estivesse aqui nesse dia. Parece que nada mais faz sentido sem...”
Por favor, pare.
O garoto se assustou e fez uma cara de desaprovação.
“Como assim?”
Entendo perfeitamente o seu sofrimento, meu filho. Entendo perfeitamente o quanto você está sentido dor, aflição. Não pude explicar tudo  o que desejaria a você, mas por favor, preste atenção.
O menino sentou na cama e prestou atenção a cada palavra pronunciada pelo seu pai.
A morte não existe, meu filho. Ela é apenas a passagem de um mundo para o outro. Permanecer lamentando-se por um fenômeno natural é colocar em xeque tudo de maravilhoso que vivi com você e com todas as outras pessoas da terra.
“Mas pai, o senhor se foi. Eu sinto saudades, eu sinto falta de você, da sua companhia. Mamãe sente falta de você. Mesmo demonstrando forças, eu sei que ela chora toda noite pensando no senhor...”.
Eu sei, meu filho. Eu sei. Observe bem...
O garoto prestou ainda mais atenção, acomodando-se na cama.
Se estou falando com você, deve ser porque é bem mais fácil explicar certas coisas a você do que a sua mãe. Ela não tem a estrutura que eu e você temos, filho. Ela é incapaz de suportar a grandes dores. Seria bem mais difícil para mim explicar tudo o que tenho para explicar sem que ela caísse em prantos e exigisse a minha presença mais de uma vez.
“Então você não aparecerá mais?”
Filho, por mais que eu o ame, por mais que eu sinta sua falta. Você não é privilegiado. Use o conceito de justiça. Por que, dentre tantos outros desse planeta, e de tantos outros, você seria capaz de encontrar-se com seu desencarnado pai, enquanto tantos estão sofrendo com mais intensidade ainda?
Enxugando mais um filete de lágrimas, o menino riu. Admirou as sábias palavras do pai, como sempre fizera.
A saudade me bate a cada instante, filho. Ela me lembra constantemente do que eu escolhi e do que deixei para trás. Perdoe-me por tudo o que eu possa ter feito de errado. Perdoe-me pela minha ausência, por ter passado adiante minhas angústias, minhas decepções. São doze anos de vida em um mundo frágil e descontrolado. Existirão muitas outras experiências, muitas outras provações. A evolução tem de ocorrer, com e sem a minha ausência. Porque a paz, meu filho, está dentro de cada um de nós. Inviolável, inquebrável. Somente com a evolução da tua mente e da tua conduta moral é que serás como eu, intangível.
O menino ergueu-se e olhou profundamente nos olhos do pai, na qual também pequenos filetes de lágrimas escorriam, molhando toda aquela face luminosa e esperançosa.
“A saudade se foi, a tristeza se foi. Durante tempos imaginei que jamais seria capaz de enfrentar tudo sozinho, sem você. Sem os seus conselhos, sua ajuda, sua força de vontade que me motivava a viver. Pensei que tudo seria bem mais fácil se você estivesse ao meu lado, me apontando o caminho certo. Mas não. Descobri da forma mais excêntrica possível que a verdadeira felicidade não está nas pessoas, e sim em nós. Acabei de perceber que tudo pode se tornar real, se nós mentalizarmos nossos objetivos com clareza.
Com a mesma nitidez que posso te olhar agora, pai”.
Não era mais uma criança e nem um jovem. Era um homem maduro, perfeito dentro das suas limitações. Tão pouco tempo de vida, tão determinado. Tamanha se tornou sua força de vontade que a presença espiritual do seu pai passou a ser mais uma chama esperançosa do que algo sobrenatural, surreal.
Sorriu.
“Obrigado por tudo, pai. Jamais me esquecerei de tudo o que o senhor fez por mim”.
Desapareceu de sua vista, sumiu completamente. A luz voltou a se formar pela luz lunar. A brisa do vento voltou a penetrar pela janela aberta e a balançar as folhas verdes das árvores.
Somente uma voz distante, porém tão próxima e viva pode ser ouvida, do infinito que preencheu aquele magnífico momento.
Eu te amo, meu filho.

Yerick Douglas

Desencontros


Longe de casa, longe de todas as formas de problemas que poderiam existir, longe do tormento moderno, paro e procuro descansar. Deito-me em uma rede em frente ao mar, observando o movimento harmônico das ondas que vem e vão naquele infinito oceano. Sinto a suave brisa ir de encontro a minha pele, como se ela fosse a mão suave e carinhosa de um grande amor, que afaga e percorre todo o meu corpo, expurgando todas as impurezas, todos as aflições, todas as indiferenças. E naquele mesmíssimo lugar fecho os olhos, concentrando-me apenas nos meus sentidos. Ouço o som da magnífica orquestra regida pela mãe natureza.
O quanto é imenso o número de peças que a vida nos prega. Consideramos sempre que a nossa história será escrita como as páginas de um livro, onde nós somos os mocinhos e que tudo está devidamente traçado pelo autor. Com as linhas tortas, imaginamos que tudo o que nos rege possui um começo, um meio e um fim. Na verdade, nem sempre tudo sai da forma como prevemos.
Pare e reflita durante alguns poucos minutos. Quantas vezes imaginamos que estaríamos fazendo uma coisa na qual nunca imaginamos? Por vezes já me peguei pensando em uma pessoa que nunca pensei. Infinitas vezes me surpreendi quando determinadas situações ocorreram na minha vida de forma inesperada, situações na qual eu nunca imaginei que pudesse acontecer.
Isto leva a crer que nem sempre são as nossas escolhas que direcionam o nosso caminho. Muitas vezes, me parece até que o Criador realmente tem um plano para todos nós, e que este plano foge completamente do roteiro do qual estamos acostumados a ler.
Permito que por minutos a sensação de pleno relaxamento tome conta de todo o meu corpo. Sou capaz de sentir os meus batimentos, o calor fluente do meu corpo e das suas trocas com o meio externo. As pequenas partículas de areia que são sopradas pelo vento chocam-se com a minha pele dão uma sensação prazerosa, ocorrendo como se as intenções fossem a de massagear a minha camada mais externa. Um frio então me sobe a espinha. Mais uma vez, permito que os meus pensamentos me levem, como as ondas do oceano.
O amor também possui os seus mistérios. Esse sentimento incompreensível e ao mesmo tempo arrogante nos prega tantas peças como a vida; normalmente fazendo com que o nosso pobre e frágil coração seja dominado por essa emoção tentadora. Por quantas vezes não somos enganados pelo calor da emoção? Quantas e quantas vezes não nos flagramos pensando, sonhando, e até imaginando com um alguém que nunca exerceu tanta influência sobre nossa existência?
Saborear os beijos rápidos e ardentes que antecedem o ato mais sublime da raça humana. Sentir o úmido de um beijo mais lento, demorado, apaixonado, acompanhado por suaves passagem de mãos pelos cabelos, pelas costas. A força ávida que arrasta para si o corpo da pessoa amada, como se estívessemos vivendo em um só.
A saudade que nos bate constantemente quando estamos longe da presença mais agradável. Os anseios, a ausência. Inocentemente somos seduzidos por essa forma de sentir e depositamos toda a nossa felicidade em uma imagem. Em um ser físico, perfeito, admirável.
 Abro os olhos. Contemplo aquele céu azul. Límpido. As nuvens apresentam as mais variadas formas aos nossos olhos, partindo sempre das nossas interpretações. Recuo um pouco as minhas reflexões, procurando não pensar em nada, apenas vislumbrar as telas pintadas pelo artista dos céus. Vejo-me nas nuvens. Vejo todos os acontecimentos em que eu estive presente. Minha família, minha infância, meus amigos, meus amores. As circunstâncias que me fizeram e que me fazem refletir sobre tudo o que passei e tudo o que irei passar.
Felizmente as coisas sempre fogem aos nossos planos, e somos obrigados a estar preparados para os diversos desencontros que acontecerão enquanto eu pensar, e existir.
A vida é longa, eterna. Fecho os meus olhos, minha mente cansada é lentamente arrastada e adormeço. Sono profundo. Inimaginável.
Yerick Douglas