terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Se todos fossemos


Acho que o pensamento de que algo nunca irá nos acontecer sempre vem a cabeça de todas as pessoas. Não sabemos por que, mas na maioria das vezes acreditamos sermos especiais, com características que nos diferenciam de todas as pessoas da terra. De todas as culturas.
A tendência de catastrofizar os maus acontecimentos, para que sejamos sempre culpados e vítimas, afim de diminuir nossas frustrações. A vontade de aumentar em milhares de vezes um sentimento gostoso, para que todas as outras pessoas possam ver o quanto somos felizes.
E especiais.
Quando na verdade, nada temos de especial. Os desapontamentos não passarão de mágoas do passado e de risos no futuro. Vivemos um momento ruim e logo imaginamos que aquele é o maior inferno pelo qual estamos vivenciando. Em poucos minutos uma outra emoção surge, um fato acontece, a dor desaparece.
E sorrimos.
Acho que todos somos hipócritas, afinal. Ou isso, ou somos todos grande idiotas em imaginar que somos diferentes. Quando na verdade, somos todos iguais. Mas não é tão difícil raciocinar sobre isso. Basta olhar dentro dos olhos de todas as pessoas que nos acompanham, que são nossos amigos, familiares e amantes. Observem os ares maduros, o semblante sério de quem já enfrentou todos os problemas da vida.
Todos eles estão bem, estão vivos; e enquanto alguns poucos maximizam os seus problemas por um breve fator emocional, os mais antigos sabem que aquilo logo passará, e será alvo de piadas e brincadeiras. Da mesma forma que as anedotas são contadas pelas bocas sujas em bares fedidos.
Gargalhadas inconsequentes, risos para conterem lágrimas.
O fato de um fato ser superado não signfica que ele não tenha doído. Talvez não o tanto que você falou que doeu, para aumentar sua angústia e ter motivos de sobra para justificar suas falhas. Apenas o observe como sendo mais uma experiência vivida, mais uma barreira sendo superada, mais um leão sendo morto diariamente.
É daí que também temos o objetivo de atribuir características especiais às pessoas que mais amamos. Visualizamos um certo grau de perfeição, descartamos os defeitos e acolhemos somente as qualidades.
Por que?
Porque se assim não o fosse, como seríamos capazes de conviver com tantas imperfeições? Prestaríamos mais atenção nos detalhes que compõem o todo do que a parte maior que nos interessa. Tentamos, segundo por segundo, tirar das nossas mentes a imagem do diferente, do surreal, para colocar na cabeça que aquela pessoa foi feita para nós.
O grande amor da nossa vida.
Basta só um olhar mais minuncioso, basta apenas passar o pente fino para ver que, na verdade, ela é totalmente diferente do que sempre imaginamos que ela fosse. E é nesse momento que surge a dor.
A crise.
A negação dos próprios sentimentos, a vontade de rir, de gritar, de chorar, de cair em prantos, de molhar ombros. Ou apenas engolir em seco e fechar-se mais uma vez dentro de uma concha áspera e cheia de espinhos. Retornar às origens, aceitar ser quem você é, ou ser o ser que fizeram com você. No mais, o importante mesmo é pensar que tudo não passou de um sonho e que a turbulência já passou. O pior já se foi.
Esperar o tempo certo.
E depois disso, se abrir mais uma vez. Dessa vez, na medida certa. Mesmo sabendo que não existe medida certa, que ela é impossível.
É só acreditar que no fundo não temos nada de especial, que acontece com todo mundo.
Chato demais.
Queria mesmo que todos fossemos especiais.

Yerick Douglas

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