segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Lágrimas e Semelhanças


Meia-noite.
Tanto tanto longe dele, do seu sorriso, da sua face enrrugada.
Aos doze anos de idade, e logo nesse dia, nessa data tão especial e que se comemora tantas e tantas vezes. O seu dia, seu aniversário, seu triunfo.
Não aguentou a pressão, a tristeza. Se recolheu cedo, contrariando sua mãe; que a tanto havia preparado uma festa surpresa e convidado todos os seus grandes amigos. Uma torta, salgados, refrigerantes.
Mas quem se importava, quando o melhor presente era mais uma vez ver seus olhos verdes reluzentes, sua barba mal feita, sua barriga estufada para frente. Aquela forma delicada de falar, e sua incrível capacidade de não se preocupar com nada. Ou com quase nada.
Deitou-se. Agarrou ao travesseiro.
Lágrimas, saudade.
Todos já haviam ido embora há muito tempo. Estava só desde então. Desde que aquele triste acidente pôs em um túmulo o corpo de dois homens. O seu e o dele.
Virou-se. Olhou para o teto, começando a se lembrar de todos os bons momentos que tiveram passados juntos. Das viagens, dos risos, das brincadeiras. Abriu um largo sorriso, vendo aquele filme nostálgico passar diante dos seus olhos.
Gargalhou mais uma vez, como se ele estivesse presente, ajudando-o a lembrar de momentos em que sua mente foi capaz de esquecer. Como se estivesse apontando certos detalhes, certos pontos específicos que faria aquele momento ser ainda mais especial.
Ele não estava ali, nunca mais estará.
Um quarto vazio como seu corpo sem a sua alma. Sua semelhança.
Seu pai.
Virou-se lateralmente e tomou um susto. Como se algo estivesse invadindo a sua privacidade, logo na quina do seu ambiente de repouso.
Deve ter sido somente impressão. Foi ao interruptor e ligou a luz.
Nada.
O cérebro nos faz imaginar situações impossíveis de acontecer, como se por um instante fossemos capazes de imaginar e visualizar o espírito de um ente querido. Nossa vontade é tanta que somos capazes de criar aquilo que queremos ver, e dessa forma, descansar felizes e tranquilos.
Por que choras, meu filho?
Rapidamente sentou na cama e ligou a luz. Um susto. De onde poderia ter vindo aquela voz. O quarto contava somente com a sua presença, de onde poderia ter saído aquele som?
Não.
Mais uma vez percebeu que era algo de sua cabeça. Mais uma criação imaginária.
Achou mesmo que iria te abandonar?
Assustou-se de vez, quase entrou em prantos.
Acalma-te. Sempre estive ao seu lado, recitando ao seu ouvido. Por que logo agora deixará de acreditar que sempre estive com ti?
Ligou a luz, não havia ninguém.
“Pai”?
Quem mais seria?
As lágrimas vinham aos seus olhos da mesma forma que as ondas surgem em um momento tortuoso de tempestade.
“Pai, é o senhor”?
Claro, meu filho. Sim, sou eu. Aqui estou, ao seu lado, falando, conversando, mostrando o quanto estou feliz por você ter crescido tanto. Por Deus, veja só o homem que você está se tornando. Doze anos de existência, doze anos de experiência.
“Por que o senhor não aparece, pai? Por que o senhor não permite que eu te veja?”
Não, isso tinha que ser coisa da sua cabeça. Era óbvio, era real. Mas tinha que ser uma criação mental, algo explicável, justificável.
Como não estou aparecendo para você filho, se estou exatamente na sua frente como estive a tantos anos no passado? Estou bem aqui, olhando para você, contemplando esse seu rosto lindo e parecido comigo.
“Então por que não te vejo?”
Porque sua racionalidade ainda está impedindo que esse momento se torne real.
Fechou suas pálpebras. Dois filetes de lágrimas escorreram pelo seu rosto. Mentalizou. Desejou de todas as maneiras ver o seu pai mais uma vez. Repetia constantemente que aquilo era real, que tinha que ser real. Sua vontade passou a transmitir suas vibrações.
Sentiu algo diferente.
Era como se aquele momento pudesse transpassar o limite do imaginável. A barreira inquebrável da pura e simples racionalidade. Era escrito em seu livro sagrado que cabe somente aos homens se relacionarem com os próprios homens. Mas a tanto o seu genitor havia partido. Como era possível estabelecer uma relação além túmulo?
Quem se importa com o que está escrito em um livro?
Abriu seus olhos e chorou.
Em forma de luz branca, parado em pé em frente a cama estava seu pai. Vestido com uma camisa de botão branca, de braços abertos. Seu rosto era o mesmo, impecável. Totalmente diferente do rosto maquiado encontrado no sepulcro de madeira. Estava novo, revigorado. Seus olhos permaneciam verdes, sua barba, mal-feita.
Por que não dá um abraço em seu pai?
O garoto correu ao seu encontro, abraçou-o mais uma vez. Chorou. Seu pedido havia sido concretizado. Uma despedida, uma forma real de encontrar-se com seu exemplo, sua semelhança. Separou-se, depois de um longo tempo. Olhou seu rosto, dessa vez acreditando que aquilo era tangível, era sólido.
Era real.
“Como isso é possível? O senhor a tanto se foi. Como posso estar falando com o senhor nesse momento, agora?”
É possível porque você quer que seja possível. É cabível porque obtive a permissão que necessitava para visitá-lo.
“Pai, quantas felicidades de estar aqui. O quanto eu pedi a Deus para que você estivesse aqui nesse dia. Parece que nada mais faz sentido sem...”
Por favor, pare.
O garoto se assustou e fez uma cara de desaprovação.
“Como assim?”
Entendo perfeitamente o seu sofrimento, meu filho. Entendo perfeitamente o quanto você está sentido dor, aflição. Não pude explicar tudo  o que desejaria a você, mas por favor, preste atenção.
O menino sentou na cama e prestou atenção a cada palavra pronunciada pelo seu pai.
A morte não existe, meu filho. Ela é apenas a passagem de um mundo para o outro. Permanecer lamentando-se por um fenômeno natural é colocar em xeque tudo de maravilhoso que vivi com você e com todas as outras pessoas da terra.
“Mas pai, o senhor se foi. Eu sinto saudades, eu sinto falta de você, da sua companhia. Mamãe sente falta de você. Mesmo demonstrando forças, eu sei que ela chora toda noite pensando no senhor...”.
Eu sei, meu filho. Eu sei. Observe bem...
O garoto prestou ainda mais atenção, acomodando-se na cama.
Se estou falando com você, deve ser porque é bem mais fácil explicar certas coisas a você do que a sua mãe. Ela não tem a estrutura que eu e você temos, filho. Ela é incapaz de suportar a grandes dores. Seria bem mais difícil para mim explicar tudo o que tenho para explicar sem que ela caísse em prantos e exigisse a minha presença mais de uma vez.
“Então você não aparecerá mais?”
Filho, por mais que eu o ame, por mais que eu sinta sua falta. Você não é privilegiado. Use o conceito de justiça. Por que, dentre tantos outros desse planeta, e de tantos outros, você seria capaz de encontrar-se com seu desencarnado pai, enquanto tantos estão sofrendo com mais intensidade ainda?
Enxugando mais um filete de lágrimas, o menino riu. Admirou as sábias palavras do pai, como sempre fizera.
A saudade me bate a cada instante, filho. Ela me lembra constantemente do que eu escolhi e do que deixei para trás. Perdoe-me por tudo o que eu possa ter feito de errado. Perdoe-me pela minha ausência, por ter passado adiante minhas angústias, minhas decepções. São doze anos de vida em um mundo frágil e descontrolado. Existirão muitas outras experiências, muitas outras provações. A evolução tem de ocorrer, com e sem a minha ausência. Porque a paz, meu filho, está dentro de cada um de nós. Inviolável, inquebrável. Somente com a evolução da tua mente e da tua conduta moral é que serás como eu, intangível.
O menino ergueu-se e olhou profundamente nos olhos do pai, na qual também pequenos filetes de lágrimas escorriam, molhando toda aquela face luminosa e esperançosa.
“A saudade se foi, a tristeza se foi. Durante tempos imaginei que jamais seria capaz de enfrentar tudo sozinho, sem você. Sem os seus conselhos, sua ajuda, sua força de vontade que me motivava a viver. Pensei que tudo seria bem mais fácil se você estivesse ao meu lado, me apontando o caminho certo. Mas não. Descobri da forma mais excêntrica possível que a verdadeira felicidade não está nas pessoas, e sim em nós. Acabei de perceber que tudo pode se tornar real, se nós mentalizarmos nossos objetivos com clareza.
Com a mesma nitidez que posso te olhar agora, pai”.
Não era mais uma criança e nem um jovem. Era um homem maduro, perfeito dentro das suas limitações. Tão pouco tempo de vida, tão determinado. Tamanha se tornou sua força de vontade que a presença espiritual do seu pai passou a ser mais uma chama esperançosa do que algo sobrenatural, surreal.
Sorriu.
“Obrigado por tudo, pai. Jamais me esquecerei de tudo o que o senhor fez por mim”.
Desapareceu de sua vista, sumiu completamente. A luz voltou a se formar pela luz lunar. A brisa do vento voltou a penetrar pela janela aberta e a balançar as folhas verdes das árvores.
Somente uma voz distante, porém tão próxima e viva pode ser ouvida, do infinito que preencheu aquele magnífico momento.
Eu te amo, meu filho.

Yerick Douglas

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