domingo, 13 de fevereiro de 2011

Trauma


Dores fortíssimas me levantam da cama mais cedo, num dia onde tudo deveria acontecer como está no roteiro. Acordar, treinar, estudar, ler, dormir. Feito pela minha pessoa, essa rotina maldita ainda consegue ser alvo de xingamentos e de resmungos, como se eu não fosse o culpado pela minha própria desgraça.
Bati na porta da minha salvadora, que sempre parece conhecer um remédio específico para cada dor que tenho no corpo. “Eu sou a sua mãe”. Pois me pareceu ser algo a mais. Uma mistura de amor materno com a investigação de Sherlock Holmes. “Você não é médica”. Eis que fomos até o covil dos demônios. O lugar que deveria ser o responsável pelas curas dos enfermos, com profissionais treinados e devidamente capacitados. O hospital.
As dores não paravam e a minha única diversão era conversar lorotas com meu irmão que estava ao lado; como também contar por quanto tempo eu já vinha sentindo aquelas fisgadas no estômago. Na recepção, uma quantidade enorme de pessoas, dos mais variados tipos. Brancos, negros, altos, baixos, feridos, quebrados, doentes e curados. Sim, os curados. Enfermeiros que transitavam de um lado para o outro, maqueiros (cujas roupas pareciam mais como açougueiros) e os seguranças que, diga-se de passagem, eram semelhantes a uma mistura de caminhoneiro com delegados de trinta anos atrás. Barrigudos, com barba grande e óculos gigantescos, que cobriam mais da metade da cara.
E tem uma espécie de triagem. Por que diabos existe isso se seremos atendidos por médicos depois?
Ficamos em frente a uma enfermeira, que houve os nossos problemas e julga sem conhecimento algum o que deve ser atendido mais depressa ou não. Fiquei deveras surpreso em não ter que rezar trezentas ave marias e quinhentos pai nossos.
“Estou com dores abdominais fortíssimas, diarréia e ânsia de vômito”. Um minuto de carência para o cérebro da “profissional” interpretar quais doenças poderiam causar aqueles sintomas. Ora, poderia ser qualquer uma: câncer, gastrite, uma mazela, banzo, encosto. Mas ela preferiu me dar uma ficha verde, julgando pela sua altíssima sapiência que eu não tinha nada.
Maldita ficha verde.
Das nove da manhã as uma da tarde olhando a porra de um quadro que ficava no canto da parede. Olhava também as placas que falavam “silêncio”, mas não conseguia ter um minuto de paz ao ouvir os infelizes gritando “Ave maria, que dor desgraçada!”; “Esse hospital é uma bosta”; “O flamengo vai jogar essa semana...”.
Inferno.
Sei lá quantas horas depois meu nome foi chamado e entrei em uma espécie de clínica para médiuns psicográficos. A médica, que não parecia ser médica, nem sequer olhou para a minha cara e ficou rabiscando um pedaço tosco de papel sobre a mesa. Três minutos em silêncio, quando ela finalmente levanta a cabeça e fala: “Vai dizer o que tem não”. Ora, perdoe-me doutora, eu não sabia que você tinha perdido a sua telepatia.
E enquanto falo meus problemas, ela abaixa a cabeça, põe a mão nos olhos e começa a preencher uma ficha. “Pronto, vai psicografar. Ao menos disso eu entendo”. Vagarosamente, me manda para uma enfermaria para tomar soro. E lá vou eu, caminhando por entre os portões do inferno, indo cada vez mais fundo, chegando até a morada do satanás.
Quando finalmente achei.
Uma sala fedorenta, abarrotada de pessoas, com cadeiras desconfortáveis e sujas. As técnicas nem sequer usavam luvas de procedimentos e tentavam de três a quatro vezes achar as veias dos pacientes. Alguns enfermos sentiam ânsias constantes de vômito, e eu já entendia porque. E vomitavam ali mesmo, dentro do saco de lixo. Dos mesmos sacos que eram jogadas as seringas usadas, os sacos do soro e os materiais para assepsia das feridas.
Mais duas horas tomando soro, ouvindo uma senhora de aparentes duzentos quilos que gritava loucamente “Que dor, meus Jesus Cristo!”, ou “É o fim do mundo, Lúcifer está espalhando a doença no mundo”, “Eu vou denunciar no correio verdade, estou aqui há mais de dua horas e ninguém me deu nem um comprimido”. E eu esperando o resultado do exame de sangue que foi feito por uma bruxa do caos. Feia, fétida e sem nenhum método higiênico. Lá pelas quatro da tarde, eu já passado de fome, vem o resultado do exame. Resultado: virose.
Virose.
Soa mais como um “Eu não sei o que você tem”.
Volto para casa, tendo que pedir permissão para parar de tomar a segunda ampola de soro fisiológico, cujos pingos caiam hiperlentamente. Após mais de dez horas sem comer absolutamente nada. E a médica ainda tem a cara de pau de falar: “O paciente precisa desse soro”.
Eu preciso é de uma boa picanha argentina, uma cerveja gelada, e desejar nunca mais voltar para esse calabouço dos diabos.
No mesmo dia parei de sentir as dores, depois de uns poucos antibióticos e reconstituintes de flora intestinal.
Na mesma hora fiz um plano de saúde.
Mas, de uma forma ou de outra, acabei descobrindo claramente porque o nome daquel lugar se chamava: hospital de Trauma da Paraíba.


Yerick Douglas

Um comentário:

  1. Que beleza de texto (gosto de todos eles). Sou seu fã de coração. Parabéns.

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