Apesar de quase obrigarem os filhos a trabalharem na rua, os pais de Solange colocaram todos os que já tinham idade na escola. Inclusive ela... para quê?
Madalena pensava que com isso se aliviaria do tormento que era ter a filha – especificamente aquela filha – em casa em tempo quase integral. Engano. Dor de cabeça maior teria frequentemente quando era chamada na sua própria casa por alguém da escola, isso porque sua filha rasgava as advertências que a diretora mandava entregar.
Era bom ter os filhos na escola, pois assim eles alimentavam-se lá mesmo com a merenda que era quase sempre um cuscuz embolado com soja, ou sopão. Isso refletia diretamente na economia interna da família, já que eram bem menos bocas para alimentar no turno que lá estivessem.
A prática de atirar comida usando as colheres como catapultas era algo comum no refeitório. Via-se bolos de fubá rolando para todos os cantos, acertando a um e a outro, e até mesmo as senhoras da copa. Não faziam o mesmo com a soja nem com o sopão quente, exceto um pequeno grupo de alunos complicados do qual participava uma garotinha meiga com cerca de seus 7 ou 8 anos chamada Solange.
Mas isso era o que menos constava em suas advertências e também das menos graves.
Uma de suas advertências de maior complicação foi, por exemplo, quando a menina rasgara com navalha de gilete uma coleguinha de sala por brigas bestas de intervalo, fazendo com que desmaiasse ao se deparar com sangue e fosse levada para o hospital, tendo que ser costurada da cabeça aos pés, feito uma buxada. E não só as meninas eram suas vítimas, também os garotos eram esmurrados, chutados, alvos de pedras e furados com grafite, até mesmo os de séries mais avançadas.
Quando sua mãe soube do incidente com a navalha, viu que a filha precisava de uma surra grande e correu atrás de Solange com um chicote de cipó na mão dentro da pequena casa. Insuficiente o espaço, correram para o quintal e lá ficaram circulando a fossa coberta com a mesma lona da farinha e que fora depois uma tenda cigana ou de sem-terras; a menina na frente, a mãe atrás, interminavelmente. As outras crias da mulher visavam tudo da porta da cozinha, torcendo para que ela alcançasse a ágil garota e lhe desse boas chicotadas em nome de todos.
- SOLANGE, PARE AGORA, ME ESCUTE, EU SOU SUA MÃE, VENHA CÁ, MENINA.
- ME PEGUE SE VOCÊ CONSEGUIR. – Retrucou correndo e rindo.
- VAI SER PIOR SE VOCÊ NÃO PARAR AGORA, SUA MALCRIADA!
E ela parou. Não somente parou como também virou-se de modo cinematográfico, esquivou-se de Madalena e a empurrou, fazendo-a cair sobre a lona e, consequentemente, dentro da fossa, entre ferros da estrutura.
A mulher gritava agoniada, não alcançava as beiradas do tanque, os filhos correram para a rua e pediram socorro, até que vizinhos vieram e conseguiram arrancar a mulher daquele esgoto em estado deplorável, ensopada de sangue e merda.
Enquanto isso, Solange mantinha-se imóvel no canto do muro, rindo.
Continua.
Layrtthon Oliveira.
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