quinta-feira, 26 de maio de 2011

Desapego


Ah, o amor.
O belo, maravilhoso, infinito, incansável amor. Aquele que faz os corações apaixonados vibrarem de felicidade só por uma troca de olhares. O calor que surge quando a figura perfeita aparece, com toda a sua beleza, todo o seu glamour. A falta de ar, as palpitações cardíacas, o dilatar da pupila.
Como é lindo, o amor.
A representação pelo vermelho, as rosas da paixão. O sentimento mais puro e sincero que o ser humano pode ter em sua tão breve vida. A motivação para fazer coisas que jamais faria, as declarações, cartas, embaraços e todos os mais incontáveis simbolismos que esse sentimento possui. O despertar emocional, a inversão de raciocínio.
Mais uma vez, o amor.
Chega de repente, do nada. Nos faz ficarmos sem reação frente a sua conquista imperdoável, nos pregando peças e mais peças, por longos e bons anos. Ter alguém ao seu lado, que ri quando abres um sorriso. Que derrama uma lágrima por ti, frente aos desafios que a vida impõe. Como é lindo esse sentimento tão nobre.
E irreal.
Tudo o que eu posso fazer é gargalhar. Não existe nada mais idiota e estúpido do que pensar que algo tão utópico e puro possa existir nesse planeta que nós vivemos. O amor, claro, ele pode ter existido há muito tempo atrás, quando a raça humana valorizava o caráter e o bom coração, antes de valorizar o materialismo pleno e fútil.
Observe bem a sociedade em que nós vivemos, quais são as pessoas mais capacitadas para viver? São aquelas úteis, inteligentes, honestas, interessantes e completas?
Não.
São as tolas, as imbecis. Os seres que não raciocinam frente as adversidades da vida. São os homens que maltratam as mulheres e seus semelhantes, achando engraçado ludibriar os corações femininos e se deliciar em outras carnes mais suculentas e fáceis. São os machos que possuem várias fêmeas e que acham ainda melhor contar as histórias de suas traições e dos seus descasos.
Pois é assim que a vida funciona. Até onde se pode ver, somos animais, mortais. E como tal, a lei da seleção natural se faz presente no nosso meio; escolhendo os mais aptos a passarem os genes adiante, genes esses que serão ainda piores do que os seus antepassados.
O tão inocente sentir, de uma emoção tão efêmera pode ser descrito em poucos versos de poesias, com dores e lamentações eternas de um homem que procurou sentir uma coisa inexistente, e morreu tentanto guardar as lembranças para sempre. Os mais fortes se ajoelharam frente ao seu poder maléfico, de procurar, de fazer juras incontáveis, pedindo, implorando pelo verdadeiro amor.
Que morreu. Que se foi. Que nunca existiu.
O que nos resta, então?
Um sentimento de nostalgia, mesclado aos desinteresses que a vida nos impôs. A busca incessante por algo falso, postiço. Julgamos amor aquela coisa tosca, que não podemos categorizar, pela falta completa de capacidades de julgar como puro aquilo que já foi maculado, açoitado.
Como a cana azeda, que engana todos os olhos. Como o fogo que o representa, mas que na verdade destrói e desune tudo aquilo que toca. Da mesma maneira que o sofrimento sentido ao fim do “amor”.
Amor? Que se acaba, que se destroça, que vem a óbito?
Não.
O amor é eterno, imortal, impecável.
Mas e ao fim de um relacionamento, como se procede? As partes se separam, e fingem nunca terem se conhecido. Eis que surge a hipocrisia das juras eternas de amor, dos sentimentos mais sinceros.
Não considero mentira tais juras, eis que o amor nunca existiu, então todas as palavras ditas em nome de um sentimento não convém a ser aquilo que eles pretendiam jurar. Falaram o nome de outro sentimento, dando o pseudônimo de amor.
Nada a declarar.
Então, tudo o que me resta é rir. Se a vida escolhe suas maneiras de selecionar, quem sou eu, um mero espectador disso que passa a questionar?
Nunca tive a inteção de abrir os olhos de ninguém, os homens são cegos por natureza, e buscam acreditar naquilo que os preenche. Sendo falso ou não, tangível ou não, volátil ou não. Apenas observo o fim da estrada, esperando ansiosamente que ela acabe, e que finalmente os homens abram os olhos para a racionalidade, dando fim a tais sentimentos corruptos que desalmam e ferem o íntimo.
Perfeição, afeição, emoção.
Basta, não?
Abro um sorriso, uma garrafa e um maço.
Destruo meu corpo conscientemente, antes que o assassino silencioso o faça por mim. Escondo-me quando ele passa, sorrateiro, buscando a próxima vítima para matar, mais uma vida para destruir. Esgueiro-me, cauteloso para não deixar nenhuma pista do meu paradeiro, para que ele jamais saiba da minha existência.
E enquanto isso, preces para encontrar o tão esquecido amor. Mas oras, sei que é esperança ridícula. Ele jamais irá aparecer, por nunca haver nascido.
Verdade, existem aqueles que acreditam e que possuem suas necessidades para isso.
Mas eu não.
Eu não acredito no amor.
Mas acredito fielmente na dor que ele possui.

Yerick Douglas

domingo, 22 de maio de 2011

Perdi o jeito

No bar, mais um que senta à mesa e pede um refrescante copo d’agua. Na rotina, um descrente julgando ser capaz de superar seu próprio corpo, treinando duro, esforçando-se ao máximo. Nas letras, mesclante de significados, nas metáforas insanas e sem nenhum tipo de conteúdo.
Perdi o jeito.
Para fazer amizades, não mais do que duas cervejas. E se tratando de mulher, um livro bom para contar piadas. Música que agrada aos ouvidos, com melodia elaborada. Um carro ultrapassado para passar obstáculos e um ônibus lotado para quem quer tanto beber. Um trago num cigarro e um tira-gosto barato. Pedido para um, perdido em outra.
Perdi o jeito.
De falar com treijeito e de contar aventuras; para recitar poesias, grandes palavras curtas. Figuras de linguagem misturada com uma boa pitada de conversa. Promessas de um homem que nunca foi capaz de honrar sua palavra; tomando uma cervejinha para comemorar o término de sua vida boêmia, devassa.
Perdi o jeito.
De ler coisas boas, de escolher bons livros. De manter a cabeça erguida frente à mais um problema surgindo à tona. Com os amigos reunidos, assuntos interessantes que saem do forno e servem os corações ébrios apaixonados sentados em uma livraria. Fonte de conhecimento sem limites, líquido de fontes geladas.
Perdi o jeito.
Traga a conta, mas traga a saideira. Amigo, vou passar três meses sem beber! Foram os piores investimentos da minha vida, porque investi na minha saúde. Maldita hora que fui escolher ser feliz, quando normalmente vivo num âmbito de doentes.
Perdi o jeito.
De escrever prosa como se fosse verso, em letras separadas que não falam nada demais. Um cérebro pensante me busca de estímulos que aglomeram sentidos quando não existem nenhum. Nada mais que um chão de giz, ou de uma grande baboseira.
Perdi o jeito.
Inventei sinônimos, criei estados. Faço muita gente pensar com frases soltas, quando poderia simplesmente está falando em inglês. Deixa pra lá, sou bem melhor ouvindo e escrevendo do que me ousando a pronunciar. Meus fonemas saem tão toscos o quanto uma folha em branco preenchida com qualquer baboseira.
Amanhã é fim de semana, domingão. Qualquer coisa é válida para matar o tempo.
Mas até para isso.
Perdi o jeito.

Yerick Douglas

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Ensaio sobre a união


Flores brancas descem escadas, representando amores estáticos de corpos ausentes. Amores eternos, de grandezas infinitas. Filhos, sobrinhos, netos, irmãos. Saudades melancólicas e uma esperança gigante de encontrar-se com aqueles que já se foram.
A união perfeita. A família perfeita. E quem sabe, o verdadeiro conceito do sentimento amor. São amizades de outras eras, vindo de outras datas. Comemorações tão passageiras, que remetem a valores extraordinários; sejam em casamentos, em aniversários, em fins de anos. Amores que não se cansam de serem declarados em nenhum momento; pois que existem música, valsa, diversões.
Cada qual com características marcantes, fazendo falta logo que são extintas. Há os que animam, outros que pensam. Outros que nada falam, mas que ao mesmo tempo remetem a uma sapiência magnânima com todo o seu silêncio.
Eis a base estrutural do ser humano. Aqueles que convivem diariamente e guardam todos os portais para a intimidade. São mulheres que dão à luz e preservam seu amor pelo filho. São pais que trabalham para educar o seu sucessor, enchendo-o de moral e de caráter. São matriarcas que se enchem de orgulho em ver sua família unida, rindo do mesmo motivo, cantando as mesmas canções. Ancestrais que observam de perto, bem de perto, em seu mundo invisível que nos acotovela a todo o instante. Inspirando-nos emoções, chorando com nossas tristezas.
Difícil olhar para trás e mais ainda em acreditar como podem tantos viver sem ter a alegria em suas carametades. Pois que alma gêmea não é aquela que nasce para nos completar; são os pedaços de cada parente, de cada amigo, que nos deixa cheio, sem ao menos estar presente.
Posso viver tranquilamente sem emoções esdrúxulas, mas jamais meu corpo se animaria sem o calor da família. Ou das lágrimas que despencam dos olhos quando existe algum tipo de homenagem.

- E a todos os que já foram

Não pensem que suas memórias estão apagadas.
Em todos os momentos de nossas vidas, nos lembraremos de vocês. A cada instante, pensamentos fluem em nossas mentes, desejando a maior felicidade; tanto quanto a saudade do reencontro. Podemos estar encarceirados no momento, mas o pensamento é livre e viaja até o mais longe dos cosmos para reanimar os desejos ávidos de fraternidade.
Ao filho que escolheu a própria morte, do que ver mais rostos tristes sofrendo com sua enfermidade. Aos pensamentos fúnebres frente apenas a mais uma passagem. No momento de libertação, dúvidas quanto a sua ida, e uma carta que haveria de esclarecer toda a situação.
Aquieta tuas ânsias. Temos certeza que vamos nos encontrar. Não sei o dia, nem a hora. Mas sei o lugar.
A base da construção dos bons valores reside na estrutura familiar que ele habita. A moral é formada individualmente, mas é acrescentada por cada pedaço de amor que cada vez mais se aprofunda nos sentimentos. São amores reais, palpáveis, visíveis. Não resultado de hipocrisias malfazejas e de falsos votos de felicidade.
É a ascendência máxima de existir. Compartilhar.
Familiar.
O grande orgulho, a minha louca família.

Dedicado especialmente à minha família. Entretanto,
De nada impede que se valham de palavras para expressar
O tamanho e a felicidade de pertencer a esse mundo
Junto a pessoas que nos formam e nos completam.


Yerick Douglas

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Pura reflexão


As vezes depois de um longo dia, com tantas turbulações, nada melhor do que chegar em casa, preparar um bom jantar e ver uns filmes a noite, sozinho. Tomar uma cerveja, comer uns petiscos, enquanto aquela história fictícia ou, no máximo, baseada em fatos reais, faz com que nossa face se alegre ou entristeça.
Se a minha vida pudesse ter um gênero, com certeza ela seria de drama, onde o protagonista procura por maneiras de vencer sua frieza lógica, lamentando-se da forma cruel com que suas emoções foram arrancadas. Triste, desesperado, busca ajuda em seus amigos, contando repetidas vezes sobre seu problema, sua falta. Seu vazio.
Procura se apaixonar. Procura em si uma forma de derrotar seu vício. Encontra abrigo apenas no líquido que desce sua garganta e embriaga seu cérebro.
E enquanto o húmido faz seu efeito mágico, tenta entender por que vivemos em um mundo tão hipócrita, com pessoas tão mentirosas. Busca maneiras de entender de quantos modos um ser humano pode forjar uma máscara para disfarçar suas vontades mais obscuras, seu segredos mais sombrios.
Daria tudo para esquecer o que aprendeu a certo tempo atrás.
Aprendeu que dentro de cada um existem peças-chaves de um quebra-cabeças ideológico. Crenças, valores, sentimentos. E que todos defendem sua caixinha de brinquedos com unhas e dentes, afim de que nunca descubram os cães onde o ossinho está enterrado.
E os seus olhos, o seu conhecimento, pode até mesmo falar o quão fundo está o buraco.
As vezes simplesmente antes de dormir eu faço uma prece e peço a Deus que me ajude com os meus problemas. Peço para que ele me dê sabedoria, paz, felicidade. Que ele possa entender que as minhas necessidades carnais são somente... Carnais. Permaneço horas deitado, acordado, sussurrando palavra para um amigo invisível, em uma tentativa frustrada de barganhar com o dono da realidade.
Como se ele não soubesse do que eu preciso ou não.
Força para ter um dia melhor, agradecer por quem eu sou, por quem eu poderia ter sido.
Família, casa, amigos. Irmãos. Amor.
Os pilares que sustentam a minha vida são mais do que aqueles que convivem comigo em uma casa. São também os outros, que fazem questão, mesmo sem eu nunca ter pedido ou implorado, de dizer que me amam e que fariam de tudo para que eu pudesse ser a melhor pessoa possível. São aqueles que me aplaudem quando faço algo realmente extraordinário. São os mesmos que me levam para casa depois de uma longa noite, com um puxão de orelha no dia seguinte.
É o mais próximo que tenho do amor.
O mais próximo que senti do amor.
Tal palavra que nunca fez sentido para minhas sinapses lógicas. Como é possível amar? Amar incondicionalmente, amar por amar. Será realmente que isso existe? Ser acordado inesperadamente pela pessoa com quem você desejaria passar um bom tempo, compartilhando segredos, intimadades. Trocando carícias, massagens. Isso me soa tão encantador.
Como se a realidade fosse mesmo essa.
Como se as pessoas realmente fossem verdadeiras.
Os interesses, a realidade. Tivemos até que criar nossos próprios álibis para podermos nos relacionar. Inventar desculpas para explicar nossos impulsos primitivos e nosso desejo de se sobrepor aos limites do outro. Uma bela maneira de tornar inteligível nossos interesses, nossas necessidades.
Tudo que aprendi com o amor é que não podemos confiar nele.
Pois quando menos esperamos, ele sempre aparece nas surdinas, mostrando claramente o motivo de ser tão sedutor.
E por mais que tenhamos noções sobre sua periculosidade, o convidamos gentilmente para penetrar nosso templo sagrado. Oferecendo até mesmo um bom vinho para sua agradável companhia.
Droga, o amor.
O carrasco que nunca tarda ao decapitar a sua vítima. Seja ela de bom grado ou oferecendo resistência.
Nunva vi a real face desse sentimento, pois como todo bom golpeador, veste uma máscara, esconde a sua face.
Assim como nós nos escondemos dos outros. Da mesma forma como nos fazemos de vítima das circunstâncias para sustentar nosso orgulho e nossas falhas. Achamos bonito possuir defeitos, pois ao menos temos um motivo plausível para conversar sobre alguma coisa séria em uma mesa de bar, fingindo ser intelectuais e homens de elevado conhecimento.
E em algumas bebidas e um lance bonito, um grito de gol.
Um grito tão alto e sincero. Um desabafo.
Mas a minha vida não é uma história com roteiro e com final feliz. Eu ainda não escolhi o que quero ser quando crescer.
Não sei se quero seguir os passos largos da eternidade de conhecimento, ou se vou tentar extrair os meus sentimentos para que nunca mais precise lutar contra minhas vontades.
Me parece mais que viverei da maneira com que sempre vivi. Com minha identidade, meu conflito, minha ansiedade, minha fria e adorada lógica. Cicatrizes que olho no espelho todas as manhãs para me lembrar de quem eu sou, do que fizeram comigo.
Fingir, mentir.
Não.
São palavras sérias para todos os miseráveis corpos inteligentes que habitam esse planeta.
Vou apenas pintar minha persona e torná-la ainda mais bonita.
E certificar de que ninguém nunca veja através dela.

Yerick Douglas