As vezes depois de um longo dia, com tantas turbulações, nada melhor do que chegar em casa, preparar um bom jantar e ver uns filmes a noite, sozinho. Tomar uma cerveja, comer uns petiscos, enquanto aquela história fictícia ou, no máximo, baseada em fatos reais, faz com que nossa face se alegre ou entristeça.
Se a minha vida pudesse ter um gênero, com certeza ela seria de drama, onde o protagonista procura por maneiras de vencer sua frieza lógica, lamentando-se da forma cruel com que suas emoções foram arrancadas. Triste, desesperado, busca ajuda em seus amigos, contando repetidas vezes sobre seu problema, sua falta. Seu vazio.
Procura se apaixonar. Procura em si uma forma de derrotar seu vício. Encontra abrigo apenas no líquido que desce sua garganta e embriaga seu cérebro.
E enquanto o húmido faz seu efeito mágico, tenta entender por que vivemos em um mundo tão hipócrita, com pessoas tão mentirosas. Busca maneiras de entender de quantos modos um ser humano pode forjar uma máscara para disfarçar suas vontades mais obscuras, seu segredos mais sombrios.
Daria tudo para esquecer o que aprendeu a certo tempo atrás.
Aprendeu que dentro de cada um existem peças-chaves de um quebra-cabeças ideológico. Crenças, valores, sentimentos. E que todos defendem sua caixinha de brinquedos com unhas e dentes, afim de que nunca descubram os cães onde o ossinho está enterrado.
E os seus olhos, o seu conhecimento, pode até mesmo falar o quão fundo está o buraco.
As vezes simplesmente antes de dormir eu faço uma prece e peço a Deus que me ajude com os meus problemas. Peço para que ele me dê sabedoria, paz, felicidade. Que ele possa entender que as minhas necessidades carnais são somente... Carnais. Permaneço horas deitado, acordado, sussurrando palavra para um amigo invisível, em uma tentativa frustrada de barganhar com o dono da realidade.
Como se ele não soubesse do que eu preciso ou não.
Força para ter um dia melhor, agradecer por quem eu sou, por quem eu poderia ter sido.
Família, casa, amigos. Irmãos. Amor.
Os pilares que sustentam a minha vida são mais do que aqueles que convivem comigo em uma casa. São também os outros, que fazem questão, mesmo sem eu nunca ter pedido ou implorado, de dizer que me amam e que fariam de tudo para que eu pudesse ser a melhor pessoa possível. São aqueles que me aplaudem quando faço algo realmente extraordinário. São os mesmos que me levam para casa depois de uma longa noite, com um puxão de orelha no dia seguinte.
É o mais próximo que tenho do amor.
O mais próximo que senti do amor.
Tal palavra que nunca fez sentido para minhas sinapses lógicas. Como é possível amar? Amar incondicionalmente, amar por amar. Será realmente que isso existe? Ser acordado inesperadamente pela pessoa com quem você desejaria passar um bom tempo, compartilhando segredos, intimadades. Trocando carícias, massagens. Isso me soa tão encantador.
Como se a realidade fosse mesmo essa.
Como se as pessoas realmente fossem verdadeiras.
Os interesses, a realidade. Tivemos até que criar nossos próprios álibis para podermos nos relacionar. Inventar desculpas para explicar nossos impulsos primitivos e nosso desejo de se sobrepor aos limites do outro. Uma bela maneira de tornar inteligível nossos interesses, nossas necessidades.
Tudo que aprendi com o amor é que não podemos confiar nele.
Pois quando menos esperamos, ele sempre aparece nas surdinas, mostrando claramente o motivo de ser tão sedutor.
E por mais que tenhamos noções sobre sua periculosidade, o convidamos gentilmente para penetrar nosso templo sagrado. Oferecendo até mesmo um bom vinho para sua agradável companhia.
Droga, o amor.
O carrasco que nunca tarda ao decapitar a sua vítima. Seja ela de bom grado ou oferecendo resistência.
Nunva vi a real face desse sentimento, pois como todo bom golpeador, veste uma máscara, esconde a sua face.
Assim como nós nos escondemos dos outros. Da mesma forma como nos fazemos de vítima das circunstâncias para sustentar nosso orgulho e nossas falhas. Achamos bonito possuir defeitos, pois ao menos temos um motivo plausível para conversar sobre alguma coisa séria em uma mesa de bar, fingindo ser intelectuais e homens de elevado conhecimento.
E em algumas bebidas e um lance bonito, um grito de gol.
Um grito tão alto e sincero. Um desabafo.
Mas a minha vida não é uma história com roteiro e com final feliz. Eu ainda não escolhi o que quero ser quando crescer.
Não sei se quero seguir os passos largos da eternidade de conhecimento, ou se vou tentar extrair os meus sentimentos para que nunca mais precise lutar contra minhas vontades.
Me parece mais que viverei da maneira com que sempre vivi. Com minha identidade, meu conflito, minha ansiedade, minha fria e adorada lógica. Cicatrizes que olho no espelho todas as manhãs para me lembrar de quem eu sou, do que fizeram comigo.
Fingir, mentir.
Não.
São palavras sérias para todos os miseráveis corpos inteligentes que habitam esse planeta.
Vou apenas pintar minha persona e torná-la ainda mais bonita.
E certificar de que ninguém nunca veja através dela.
Yerick Douglas
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