terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sepulcro


Lembrava-se da noite em que tudo o ocorreu. Uma noite tão densa e fria como esta. Em mínimos detalhes, estudou as vítimas como um predador; as observando à noite e nos mais sorrateiros passos. Caminhavam tranquilamente pelos parques, buscando diversões e meios de ludibriarem as próprias razões. Sequer imaginavam o fim que as esperavam.
A primeira era uma dama bela e sorridente. Qual surgia faziam as multidões rirem de alegria, despreocupados com todas as agonias. Num movimento sutil, a lâmina penetrou por entre suas vestes, espalhando o líquido avermelhado por toda a sua casa. Fitou os olhos do seu assassino momentos antes de fechar os olhos por toda a eternidade. Sorriu. Sabia que aquilo iria acontecer.
Limpando a arma letal, seguiu em direção do próximo.
Estava em sua casa, acompanhado de belas mulheres. Gargalhadas incontroláveis faziam-se no salão, faces avermelhadas das bebidas que banhavam os corpos despidos, e uma vontade incontrolável de permanecer assim por longos períodos. E ele estava lá.
Fitando a presa, já sentia escárnio daquele charme postiço que sempre fizera. Enganava as moças, afirmando ser o que mais as fariam felizes. Mas, inteligente que era o gatuno, sabia que tudo aquilo não passava de uma farsa. Quantos casais havia separado usando apenas o vosso nome? Quantas declarações recebera e quantas vezes sua pessoa havia sido pronunciada para que a mentira se alastrasse?
Esperou o momento certo.
No momento que o belo senhor abriu a porta de um dos seus aposentos, a faca penetrou no seu abdomen, fazendo-o cair instantaneamente. Procurou o cruel inquisitor...
E lá estava. Todo de preto, como havia se tornado a pouquíssimo tempo. Também havia sido enganado, como todos os outros. Levantou a cabeça do mais idoso para que ele pudesse olhar em seus olhos negros. Antes que qualquer palavra pudesse ser falada pela sua vítima, enfiou o metal gelado em seu estômago mais duas vezes, vingando-se do que fizeram com ele.
Uma para cada. – Grunhio o assassino.
E o senhor tombou. Sem vida, sem glamour, sem mais nada.
Olhou para sua lista, higienizando a mão no cadáver em seus pés. Ainda faltavam muitos, todos infelizes seres destinados a provarem da terra áspera do cemitério.
Pouco a pouco, corpos iam sendo empilhados e o sangue ia sendo derramado.
Quando voltou a si, continuava de preto. Um terno fino de corte italiano, em frente a um coveiro que sepultava a última das covas. Ao seu lado,  nem viúvas em escândalos e nem filhos lamentando as mortes. Apenas ele, o cruel inquisitor.
Tampouco haviam gotas que caíam do céu, pois suas lágrimas haviam sido extintas tal como foram todos os outros sentimentos.
A areia caía do alto da pá, em movimentos repentinos de ida e volta.
Ele então fitou o seu passado, procurando um motivo sequer que fizesse pesar a sua consciência e causar o maior dos remorsos. Esperou. Nem um motivo sequer. Nada. Sua mente estava serena e tranquila como nunca estivera.
Não havia mais amor para o enganar, nem paixão para eliminar todas as suas agonias. Sequer havia o medo de sofrer, a felicidade para o enfraquecer e nem o ciúme para o atrapalhar. A partir daquele instante, estava só como nunca estivera.
Só e maduro. Único e racional. Inseparável de si mesmo. Liberto dos grilhões de sua própria alma, senhor das suas escolhas e do seu próprio destino.
Antes do último sepulcro, fez menção para que parasse.
De dentro do seu terno, puxou uma rosa vermelha, que a muito tempo havia guardado para uma pessoa especial. Em movimento lento, jogou-a e a viu cair lentamente sobre a terra encarniçada e fétida.
Representou o amor. Mas dessa vez, sem romance.



Yerick Douglas

3 comentários:

  1. Melancólico, psicopata (rs), triste e romântico ao mesmo tempo. Grande, audaciosa e incrível mistura de sentimentos: sensacional. Parabéns!

    Carol Andrade.

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  2. Ler isso a essa hora, com esse tempo me faz não querer sair de casa :) uaehuaheauhe

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  3. Agora eu sei quem matou Norma e Salomão Hayala! kkkkkkkk

    Gostei desse!
    Muito bem escrito! Parabéns!!

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