segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Suicídio Emocional

O barulho causado pela batida da porta é o suficiente para dar um susto em qualquer ser vivo que estivesse acordado. As lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas as enxugava discretamente, certo de que ela nunca repararia a sua fraqueza. A raiva de ter perdido o seu grande amor se mesclava entre a agonia da solidão e a ânsia do desamparo.
A porta do carro também acompanhou a violência usada na de madeira, da mesma maneira que os pneus proclamaram por sua existência, quando suas marcas ficaram no asfalto. Estava só. Pra falar a verdade, foi assim que ele sempre esteve muito antes de conhecê-la, de saber que nessa vida ainda existem pessoas que sabem explorar seus sentimentos, e que além disso, sabem como fazer outras pessoas sentir.
A quanto tempo não sentia tristeza? Um, dois ou três anos? Não sabia mais, pois nada daquilo importava. Ele precisava de uma atitude, e precisava com urgência. Desamparado, passou a marcha seguinte e pegou o seu celular, procurando na agenda por um número amigo que o fizesse consolá-lo. Mas já era tarde, quem estaria acordado a essa hora da madrugada para ouvi-lo falar de suas tristezas, e do triste término de namoro?
Ninguém.
Ele tinha dinheiro e era tudo aquilo que ele precisava. Pensou em pagar uma prostituta, mas era muito cedo. Tinha certeza de que a imagem na cama seria a de sua amada, e não de uma megera paga para satisfazer os seus desejos sexuais. Freiando em um quebra-molas, imaginou que a garota apenas o iria o deixar mais triste ainda, ou com mais um pouco de raiva. Mas os objetivos naquela noite eram outros.
Ah, o cigarro. Como o confortou saber que naquele carro, aquele mesmo veículo teria sido alvo de uma falha memória. Um dos seus grande amigos havia, sem nenhuma intenção, deixado seu mais precioso vício cair no banco do passageiro no momento do desembarque. Coincidência? Não, ele não sabia. Mas tinha certeza que a saúde do próprio corpo já não fazia mais sentido sem ela.
Ligou o acendendor e deu o primeiro trago. A fumaça expirada era como o orgasmo ao fim do amor. O seu consolo. Era o único amigo que tinha naquele momento, para falar da perda, do ego, e de todas as loucuras que ambos haviam cometido.
A segunda puxada foi ainda melhor, pois a sensação veio para o não fumante. O relaxamento quase completo do seu corpo, a sensação falsa de alívio tomou conta do seu cérebro, que agora recebia constantes informações de que tudo estava normal, tudo estava resolvido.
Mas isso era falso e ele tinha consciência. Precisava de mais alguns amigos para se sentir feliz, para desabrochar e contar de todas as suas falhas e todos os seus defeitos. Para dizer o quanto ela foi importante para ele e o quanto está arrependido de ter cometido tudo o que nunca fez, só para tê-la de volta em seus braços.
Estaria ela triste agora? Pensou. Imaginou que não, pois tamanha frieza em acabar um relacionamento tão longo só poderia ser feito por uma especialista em desmoronar corações. Aquela que ensina as crias menores a repetir os seus feitos, provando para si própria que a raça masculina é o contrário do que aparenta ser. Que a valentia pode ser transformada em mágoa pela menor ferida em seus corações.
Mas aquela noite iria mudar, pois pareceu que os céus estivessem dando uma chance ao pecador. Aquele estabelecimento iria mudar suas concepções para todo o sempre. Diminuiu a marcha e estacionou o carro. Olhou a sua carteira. Dinheiro mais do que suficiente para conversar com todas as loiras que pudesse conversar. Talvez até algo mais forte pudesse ser necessário.
Entrou no bar, sentou e levantou a mão. Pediu o whisky mais vigoroso que houvesse ali; em seguida pôs a mão no bolso e colocou em cima da mesa a carteira de cigarros que possuía, imaginando que o seu amigo talvez precisasse de uma nova. Novamente acendeu o fumo, dando os tragos, enquanto esperava a sua bebida.
Olhou ao seu redor; e cada momento que via um casal sorrindo e sendo feliz o amargurava, fazendo-o sentir uma angústia tão cruel que só aumentava a sua vontade de se embriagar e resmungar toda a dor sentida.
E veio o primeiro copo, o segundo e o terceiro. Até que teve que fazer pose para não revelar sua intolerância ao álcool. A quarta, quinta e sexta dose o fizeram entender por que amar é tão difícil e cruel, e o quanto o ser humano é frágil em seus próprios sentimentos. Sétima, oitava, nona e décima. Pronto. Meia garrafa, meio coração, ambos partidos pela mesma vontade, pelo mesmo destino.
Já não ouvia mais nada, nem via mais ninguém. A única imagem em sua mente era de uma moça, que um dia encantou os seus sonhos e que nunca, pelas suas próprias palavras, estaria de volta, por qualquer motivo que fosse. Onde estaria a sua felicidade agora? Afogada em um copo de whisky e uma carteira de cigarros? Não. Se fosse para se afogar, que fosse por completo.
Mais doses vieram. Mais consolo de uma mão amiga que desperdiçava o seu tempo ouvindo as suas amarguras. Um ombro para chorar, mesmo que esse fosse feito de vidro. Mas quem se importava do que era feito? Ele queria e precisava de alguém para o aconselhar, por mais postiço que o fosse.
O fim da garrafa e o fim da picada. Precisava de atitude. Voltar para casa? Jamais. Já estava calibrado e necessitava falar pra ela de todos os seus sentimentos. Levantou-se com dificuldade, deixando dinheiro mais que suficiente sobre a mesa. Acenou para o garçom e foi embora, esbarrando em todas as mesas e pessoas.
A personificação do encarniçado.
Entrou no carro e olhou o celular. Nenhuma mensagem recebida. Ligou o motor. O destino era a casa de sua amada, pois nunca desistiria sem lutar. Deixaria os orgulhos de lado e seria o que ela quisesse que ela fosse. Ligou o rádio em uma música romântica e acelerou forte, provando a si mesmo que era capaz de qualquer coisa, inclusive de reconquistar o seu amor.
Passou um, dois e três sinais. E não mais que isso. Cochilou em pensar o quanto seria gostoso tê-la de volta. Mas a realidade é cruel. Um choque frontal foi o suficiente para jogá-lo pelo vidro da frente ao encontro de um muro. O muro da perdição, da insuficiência.
E então se recordou pela enternidade porque é tão difícil amar sem sentir dor.

Yerick Douglas

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