sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Álibi


Queria eu saber como e de onde me vem inspiração. Qual a imagem que sobe em minha mente e me liberta ou me afoga em tragédias; em pensamentos sórdidos, em amores impossíveis ou na paixão mais avassaladora. Qual a esperança que me bate e me angustia em saber que tudo pode estar vivo, ou tudo irá se acabar em poucos segundos.
Não escrevo com propósito limpo, de caráter altruísta. É que afloram os meus sentidos e a necessidade surge, tal qual como surge a fome ou a vontade de fumar um cigarro. Ela simplesmente aparece, sem pedir permissão, sem pedir licença. E sempre é atendida. No fundo, visualizo o mar em sua imensidão. No azul infinito ou no verde mais aporcalhado. Vejo as nuvens em um céu aberto, ou os raios caindo na tempestade.
Vejo o paraíso, mas descanso no inferno.
Sinto o prazer de um toque leve e o tambor zoar nos ouvidos. Um dedilhado acústico de violão, uma letra bonita. E penso em uma pessoa. Nem sempre tem imagem, nem sempre é um amor. Pode ser uma caricatura velha, de uma antiga senhora; tanto quando pode ser os cabelos lisos e loiros de uma ex-namorada. Abraço à vida como quem abraça o apego à morte. Das fúrias terrenas que nos prendem a monotonia e as contas para pagar.
Dos filhos que ainda vão vir, dos netos que existirão.
Escrevo pois é a única maneira de libertar meus sonhos, e falar que grito. Que tenho voz. Sentir a liberdade bater a porta e eu oferecê-la uma garrafa de cerveja ou um vinho barato. Sento no sofá e peço que me acompanhe, ou caso o contrário vou jogar-me a esmo e ser entregue as baratas.
Rabisco o papel.
Pois de outra maneira, sentiria-me doente somente em respirar. E ter que repetir incontáveis vezes durante o dia essa mania hipócrita de puxar o ar e soltá-lo. Um paradoxo, pois nem a condição de controlar meu corpo eu tenho. Sou obrigado a obedecer as leis naturais.
Vejo nas letras as réstias dos meus amigos e da minha família. Da cor escura do meu irmão de sangue, rindo e dizendo que morrerei de tanto beber. Riu com ele, afirmando coisas impossíveis e improváveis, das lágrimas que despencam dos olhos cansados do meu pai e da minha mãe. As armas e invejas dos que nem simpatizam com meu rosto, ou dos que querem friamente a minha desgraça e o meu embaraço.
Em estrofes, leio poetas famosos, comparando-os com minha insanidade e a minha vontade de atingir o nirnava da recordação, tal como fizeram os grandes escritores. Tateio meus sonhos, minha outra família e a minha condição.
Escrevo pois de jaleco vejo pingos de sangue formarem letras em uma sala limpa de cirurgia. Com o paciente em espera, com sentimentos de angústia e de dor; intercalados com vida e energia. Deseja-me bom trabalho e corre para os braços dos seus pais, onde sente o calor frenético da fraternidade. O suor de Deus e todos os seus desejos.
No papel, posso até falar coisas sem sentido através de metafóras, que mesmo assim uma pessoa linda ainda irá entender. Diferentemente de uma sociedade doente e cheia de regras e empecilhos, empilhando os nossos anseios, os nossos sonhos e a nossa vontade.
Se penso, logo existo. Escrevo, pois um dia nossos textos serão nada mais do que álibis da própria existência.

Yerick Douglas

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Como uma agulha no palheiro


Vejo um navio navegar em um oceano torrencial. A tempestade que o cerca faz com que diversos tripulantes entrem em prantos, enquanto outros se apegam a símbolos religiosos e recitam mantras de salvação. Há quem esteja até amarrado, por livre e espontânea vontade, a mastros ou partes fixas de madeira. O balanço é violento, as ondas são enormes. Entretanto, existe um senhor de cabelos grisalhos e com rosto sereno que está em paz. Sentado, em uma sala não mais segura do que qualquer outro lugar do navio, lendo um livro e firme em seu posicionamento.
Fora esse mesmo senhor que, através de cálculos e projeções, deduziu que era impossível esse navio afundar em uma tempestade daquelas. Não foi ele que construiu o navio, nem tampouco era o capitão para instigar coragem aos menos desbravadores. O senhor era apenas um senhor com um pouco de instrução.
Era cético.
Num tipo de sociedade como a qual nos vivemos hoje, ceticismo e ciência são palavras fortes para um mundo de covardes. Ao transitar pelas ruas, rituais e comportamenos sem sentidos regem o que já deveríamos ter esquecido há séculos atrás. As pessoas mudam, mas certos valores continuam estagnando e involuindo o pensamento, o amadurecimento.
Fácil de acreditar que os gregos exercitavam a filosofia, que é a mãe de todas as ciências. Mas, difícil enxergar que no século 21, filosofia se resuma à uma matéria insuportável na carreira acadêmica. As pesquisas se multiplicam em proporções geométricas, a ignorância do povo, em expoentes de dez. E os valores da humanidade vão se perdendo, como a esperança dos desacostumandos à trafegarem em navios na tempestade.
Um falso conteúdo moralista prega que a virgindade é o exemplo de pureza. Quais bases defendem essa ideia, senão pela fé? Hormônios afloram, os desejos aumentam, as necessidades se acumulam. Relacionar-se sexualmente é uma tarefa de todos nós, humanos. Pois então, para que resguardar-se para uma hora específica, um momento específico, quando todos os momentos são exatamente os mesmos? Não existe modificação da realidade após o casamento, e o tempo seria o mesmíssimo tempo caso o matrimônio não houvesse acontecido. O hímen não garante o lugar de ninguém no céu, nem é o passaporte para o inferno. Ele apenas, e não mais que isso, é uma membrana que se desmancha no primeiro ato – e diga-se de passagem, o mais facinante momento – o sexo. Falta um pouco de questionamento, um pouco mais de dúvidas. Crer requer sentido, mas tantos creem sem saber porque acreditam.
Ceticismo.
A palavra já perdeu tamanho significado que é necessário a criação de pedaços de papel para se valorizar algo dito. Documentos e contratos, em sua grande maioria, refletem que o homem é incapaz de assegurar sua palavra. Promessa tornou-se significado de política, e política, de mentira. Escolhemos nossos representantes sabendo de suas desonestidades, mas mesmo assim nos apegamos à eles com unhas e dentes. Quando as desgraças ocorrem, amaldiçoamos a tudo e a todos. Mal sabendo que é completamente nossa, e só nossa, que ele esteja no poder.
Amor se tornou sinônimo de idiotice, na contemporaneidade. Sobra-nos ter que conviver com a paixão e os seus derivados – os interesses múltiplos. Talvez alguns poucos, mínimos e agraciados, possam desfrutar desse sentimento magnífico, e ao mesmo tempo sedutor. Enquanto os outros acham que amam, e amacebam-se com falsas emoções. Amizade, cumplicidade, tudo se inverteu.
Família é estatus, não mais união.
Namoro tornou-se sexo, diversão.
A inversão vai acontecendo cada vez mais e mais, pela falta de dúvidas do povo. Que se acostuma com o que é bom e está na moda. Os maiores gênios vão se acabando num cenário de doentes, desistindo dos próprios planos para – ou viverem só, que ainda sim é mais digno – ou se entrelaçando com o mundo, quando deixam de ser gênios.
Fim. Ponto final.
Afirmo que meu interesse pessoal em se tornar mais um se acabou. Não vou mentir em afirmar que aprecio algumas coisas boas que modernidade nos trouxe, como a liberdade de forma geral. Só afirmo que meus valores continuam “na velha guarda”.
Sim, sou cético. Até demais. Chego a ser ignorante em alguns momentos. Mas tudo isso com um intuito maior, de preservar a minha integridade moral e filtrar as centenas de milhares de informações que me engolem todos os dias. Cada qual defendendo sua religião, sua fé, sua doutrina mística e os eternos rituais que nos proporcionariam paz ou a entrada em algum lugar sagrado e maravilhoso.
Eu não.
Prefiro questionar tudo o que eu vejo, garantindo um aprendizado mais sólido e mais embasado. Sei como eu sou e porque eu sou.
Talvez eu seja mais um maluco, sei lá.
Ou um excêntrico.
Mas de verdade, e isso pode até soar um tanto arrogante – eu até gostaria que houvesse um incêndio.
Pois teria certeza que sou uma das poucas agulhas desse palheiro.

Yerick Douglas

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Solange, filha de Satã - Parte 2



 Apesar de quase obrigarem os filhos a trabalharem na rua, os pais de Solange colocaram todos os que já tinham idade na escola. Inclusive ela... para quê?
Madalena pensava que com isso se aliviaria do tormento que era ter a filha – especificamente aquela filha – em casa em tempo quase integral. Engano. Dor de cabeça maior teria frequentemente quando era chamada na sua própria casa por alguém da escola, isso porque sua filha rasgava as advertências que a diretora mandava entregar.
Era bom ter os filhos na escola, pois assim eles alimentavam-se lá mesmo com a merenda que era quase sempre um cuscuz embolado com soja, ou sopão. Isso refletia diretamente na economia interna da família, já que eram bem menos bocas para alimentar no turno que lá estivessem.
A prática de atirar comida usando as colheres como catapultas era algo comum no refeitório. Via-se bolos de fubá rolando para todos os cantos, acertando a um e a outro, e até mesmo as senhoras da copa. Não faziam o mesmo com a soja nem com o sopão quente, exceto um pequeno grupo de alunos complicados do qual participava uma garotinha meiga com cerca de seus 7 ou 8 anos chamada Solange.
Mas isso era o que menos constava em suas advertências e também das menos graves.
Uma de suas advertências de maior complicação foi, por exemplo, quando a menina rasgara com navalha de gilete uma coleguinha de sala por brigas bestas de intervalo, fazendo com que desmaiasse ao se deparar com sangue e fosse levada para o hospital, tendo que ser costurada da cabeça aos pés, feito uma buxada. E não só as meninas eram suas vítimas, também os garotos eram esmurrados, chutados, alvos de pedras e furados com grafite, até mesmo os de séries mais avançadas.
Quando sua mãe soube do incidente com a navalha, viu que a filha precisava de uma surra grande e correu atrás de Solange com um chicote de cipó na mão dentro da pequena casa. Insuficiente o espaço, correram para o quintal e lá ficaram circulando a fossa coberta com a mesma lona da farinha e que fora depois uma tenda cigana ou de sem-terras; a menina na frente, a mãe atrás, interminavelmente. As outras crias da mulher visavam tudo da porta da cozinha, torcendo para que ela alcançasse a ágil garota e lhe desse boas chicotadas em nome de todos.
- SOLANGE, PARE AGORA, ME ESCUTE, EU SOU SUA MÃE, VENHA CÁ, MENINA.
- ME PEGUE SE VOCÊ CONSEGUIR. – Retrucou correndo e rindo.
- VAI SER PIOR SE VOCÊ NÃO PARAR AGORA, SUA MALCRIADA!
E ela parou. Não somente parou como também virou-se de modo cinematográfico, esquivou-se de Madalena e a empurrou, fazendo-a cair sobre a lona e, consequentemente, dentro da fossa, entre ferros da estrutura.
A mulher gritava agoniada, não alcançava as beiradas do tanque, os filhos correram para a rua e pediram socorro, até que vizinhos vieram e conseguiram arrancar a mulher daquele esgoto em estado deplorável, ensopada de sangue e merda.
Enquanto isso, Solange mantinha-se imóvel no canto do muro, rindo.

Continua.

Layrtthon Oliveira.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Solange, filha de Satã - Parte 1



Como não poderia ser diferente, Solange nasceu ao meio dia de um sertão nordestino abrasante: um inferno. Não chorou, exceto quando teve fome. Já na primeira vez em que Madalena, sua mãe, a amamentou, deu-lhe a menina uma boa bicada no mamilo já desgastado pela alimentação das outras crias. Repetiu o ato religiosamente, até que Madá desenvolveu recusa em amamentá-la, fazendo-o somente muito depois quando já não mais se aguentavam os berros da menina ressoando na seca e tremendo as casas de taipa.
Cresceu ali, entre os cactos espinhentos e os bovinos bravos, sem medo deste ou daquele. Aos últimos, pelo contrário, infernizava; fazendo com que lhe escapulissem quando se aproximasse. Suas bonecas eram de osso, tais quais as de suas irmãs, brincavam todas juntas na terra quente. A esquelética boneca de Solange tinha que ser sempre a mais bonita em fantasia, embora vez por outra uma de suas irmãs teimavam para que as suas o fossem, o que muitas vezes acarretava em tragédia, pois Solange irritava-se e atirava a boneca nas irmãs, o que a esta altura já era uma arma – e não mais um brinquedo. Certa vez, inclusive, rasgou o supercílio da caçula – que nascera depois dela.
Era uma menina linda, de cabelos tão alvos que incandesciam sob os raios desconfortáveis de sol, um anjo.
Tempos bons viriam. Seu pai, homem empreendedor, vendeu tudo que a família possuía para investir em um caminhão de farinha de mandioca e vender na capital por quilo, iniciando uma espécie de pequeno negócio que poderia tornar-se algo muito rentável a certo prazo. Isto não fossem os fatores climáticos, com os quais o homem não contara. Ocorre que no translado do sertão para a capital caíra uma tempestade das que raramente se via naquelas bandas, e mesmo a farinha encoberta por uma lona negra improvisada não escapou de ser encharcada, ficando toda na estrada, como uma marcação de caminho para voltarem de onde vieram. Foi-se tudo: bichos, casa, móveis, dinheiro, sonhos. Tudo em farinha, em papa.
No entanto, não voltou. Talvez temendo não aguentar ver toda aquela desgraça esparramada no asfalto. Seguiu rumo à cidade ’grande‘, sem qualquer garantia. Lá chegando, aproveitou a lona vã que antes cobria a farinha e fez uma espécie de cabana para que a família se alojasse. Sobreviveram ali por determinado tempo, alimentando-se do pouco dinheiro que sobrou (no bolso), com carnes em conserva e... farinha. Esmola nunca pediram. Aos poucos as coisas foram progredindo, Luiz arrumava um bico aqui e outro acolá, que lhe rendiam alguns trocados, Madá lavava, passava, limpava e cozinhava em casas de família. Em um momento puderam alugar uma pequena casa, arrumaram empregos mais fixos e colocaram os filhos para exercerem atividades que rendessem algumas moedas.
Uma dessas atividades era vender canjicas que a mãe preparava em casa. E não havia um lugar definido para a venda, visto que eram orientados a perambularem por todos os lugares, até mesmo nos cabarés.
Em um puteiro, certa vez, Solange vendia canjicas, quando aproximou-se um homem de meia idade interessado no produto para comer e perguntou-lhe:
- Menina, esta canjica tem farinha?
- Não senhor, minha mãe não coloca farinha na mistura, é pura, é pura.
- Ah, que pena, então, pois gosto das que tem farinha.
- Pois eu estava mentindo, minha mãe coloca muita farinha, que é pra render mais. Só que se a gente diz tem gente que não compra.
- Pois diga a sua mãe pra ter vergonha na cara e parar de colocar farinha na merda da canjica, aquela velha safada.
Uma lágrima escorreu nos olhos da garota, mas não de inibição ou tristeza, senão de raiva.
Ela olhou o homem e disse em tão alto som que até mesmo os bêbados em orgasmo nos quartos fétidos ouviram:
- VAI TOMAR NO CU, SEU VELHO FI DA PUTA DO CARAI.
E além disso atirou-lhe no rosto uma tigela de canjica quente e saiu correndo, sem querer saber do resultado.

Continua.

Layrtthon Oliveira.
                                                                                                   

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Trauma


Dores fortíssimas me levantam da cama mais cedo, num dia onde tudo deveria acontecer como está no roteiro. Acordar, treinar, estudar, ler, dormir. Feito pela minha pessoa, essa rotina maldita ainda consegue ser alvo de xingamentos e de resmungos, como se eu não fosse o culpado pela minha própria desgraça.
Bati na porta da minha salvadora, que sempre parece conhecer um remédio específico para cada dor que tenho no corpo. “Eu sou a sua mãe”. Pois me pareceu ser algo a mais. Uma mistura de amor materno com a investigação de Sherlock Holmes. “Você não é médica”. Eis que fomos até o covil dos demônios. O lugar que deveria ser o responsável pelas curas dos enfermos, com profissionais treinados e devidamente capacitados. O hospital.
As dores não paravam e a minha única diversão era conversar lorotas com meu irmão que estava ao lado; como também contar por quanto tempo eu já vinha sentindo aquelas fisgadas no estômago. Na recepção, uma quantidade enorme de pessoas, dos mais variados tipos. Brancos, negros, altos, baixos, feridos, quebrados, doentes e curados. Sim, os curados. Enfermeiros que transitavam de um lado para o outro, maqueiros (cujas roupas pareciam mais como açougueiros) e os seguranças que, diga-se de passagem, eram semelhantes a uma mistura de caminhoneiro com delegados de trinta anos atrás. Barrigudos, com barba grande e óculos gigantescos, que cobriam mais da metade da cara.
E tem uma espécie de triagem. Por que diabos existe isso se seremos atendidos por médicos depois?
Ficamos em frente a uma enfermeira, que houve os nossos problemas e julga sem conhecimento algum o que deve ser atendido mais depressa ou não. Fiquei deveras surpreso em não ter que rezar trezentas ave marias e quinhentos pai nossos.
“Estou com dores abdominais fortíssimas, diarréia e ânsia de vômito”. Um minuto de carência para o cérebro da “profissional” interpretar quais doenças poderiam causar aqueles sintomas. Ora, poderia ser qualquer uma: câncer, gastrite, uma mazela, banzo, encosto. Mas ela preferiu me dar uma ficha verde, julgando pela sua altíssima sapiência que eu não tinha nada.
Maldita ficha verde.
Das nove da manhã as uma da tarde olhando a porra de um quadro que ficava no canto da parede. Olhava também as placas que falavam “silêncio”, mas não conseguia ter um minuto de paz ao ouvir os infelizes gritando “Ave maria, que dor desgraçada!”; “Esse hospital é uma bosta”; “O flamengo vai jogar essa semana...”.
Inferno.
Sei lá quantas horas depois meu nome foi chamado e entrei em uma espécie de clínica para médiuns psicográficos. A médica, que não parecia ser médica, nem sequer olhou para a minha cara e ficou rabiscando um pedaço tosco de papel sobre a mesa. Três minutos em silêncio, quando ela finalmente levanta a cabeça e fala: “Vai dizer o que tem não”. Ora, perdoe-me doutora, eu não sabia que você tinha perdido a sua telepatia.
E enquanto falo meus problemas, ela abaixa a cabeça, põe a mão nos olhos e começa a preencher uma ficha. “Pronto, vai psicografar. Ao menos disso eu entendo”. Vagarosamente, me manda para uma enfermaria para tomar soro. E lá vou eu, caminhando por entre os portões do inferno, indo cada vez mais fundo, chegando até a morada do satanás.
Quando finalmente achei.
Uma sala fedorenta, abarrotada de pessoas, com cadeiras desconfortáveis e sujas. As técnicas nem sequer usavam luvas de procedimentos e tentavam de três a quatro vezes achar as veias dos pacientes. Alguns enfermos sentiam ânsias constantes de vômito, e eu já entendia porque. E vomitavam ali mesmo, dentro do saco de lixo. Dos mesmos sacos que eram jogadas as seringas usadas, os sacos do soro e os materiais para assepsia das feridas.
Mais duas horas tomando soro, ouvindo uma senhora de aparentes duzentos quilos que gritava loucamente “Que dor, meus Jesus Cristo!”, ou “É o fim do mundo, Lúcifer está espalhando a doença no mundo”, “Eu vou denunciar no correio verdade, estou aqui há mais de dua horas e ninguém me deu nem um comprimido”. E eu esperando o resultado do exame de sangue que foi feito por uma bruxa do caos. Feia, fétida e sem nenhum método higiênico. Lá pelas quatro da tarde, eu já passado de fome, vem o resultado do exame. Resultado: virose.
Virose.
Soa mais como um “Eu não sei o que você tem”.
Volto para casa, tendo que pedir permissão para parar de tomar a segunda ampola de soro fisiológico, cujos pingos caiam hiperlentamente. Após mais de dez horas sem comer absolutamente nada. E a médica ainda tem a cara de pau de falar: “O paciente precisa desse soro”.
Eu preciso é de uma boa picanha argentina, uma cerveja gelada, e desejar nunca mais voltar para esse calabouço dos diabos.
No mesmo dia parei de sentir as dores, depois de uns poucos antibióticos e reconstituintes de flora intestinal.
Na mesma hora fiz um plano de saúde.
Mas, de uma forma ou de outra, acabei descobrindo claramente porque o nome daquel lugar se chamava: hospital de Trauma da Paraíba.


Yerick Douglas