Vejo um navio navegar em um oceano torrencial. A tempestade que o cerca faz com que diversos tripulantes entrem em prantos, enquanto outros se apegam a símbolos religiosos e recitam mantras de salvação. Há quem esteja até amarrado, por livre e espontânea vontade, a mastros ou partes fixas de madeira. O balanço é violento, as ondas são enormes. Entretanto, existe um senhor de cabelos grisalhos e com rosto sereno que está em paz. Sentado, em uma sala não mais segura do que qualquer outro lugar do navio, lendo um livro e firme em seu posicionamento.
Fora esse mesmo senhor que, através de cálculos e projeções, deduziu que era impossível esse navio afundar em uma tempestade daquelas. Não foi ele que construiu o navio, nem tampouco era o capitão para instigar coragem aos menos desbravadores. O senhor era apenas um senhor com um pouco de instrução.
Era cético.
Num tipo de sociedade como a qual nos vivemos hoje, ceticismo e ciência são palavras fortes para um mundo de covardes. Ao transitar pelas ruas, rituais e comportamenos sem sentidos regem o que já deveríamos ter esquecido há séculos atrás. As pessoas mudam, mas certos valores continuam estagnando e involuindo o pensamento, o amadurecimento.
Fácil de acreditar que os gregos exercitavam a filosofia, que é a mãe de todas as ciências. Mas, difícil enxergar que no século 21, filosofia se resuma à uma matéria insuportável na carreira acadêmica. As pesquisas se multiplicam em proporções geométricas, a ignorância do povo, em expoentes de dez. E os valores da humanidade vão se perdendo, como a esperança dos desacostumandos à trafegarem em navios na tempestade.
Um falso conteúdo moralista prega que a virgindade é o exemplo de pureza. Quais bases defendem essa ideia, senão pela fé? Hormônios afloram, os desejos aumentam, as necessidades se acumulam. Relacionar-se sexualmente é uma tarefa de todos nós, humanos. Pois então, para que resguardar-se para uma hora específica, um momento específico, quando todos os momentos são exatamente os mesmos? Não existe modificação da realidade após o casamento, e o tempo seria o mesmíssimo tempo caso o matrimônio não houvesse acontecido. O hímen não garante o lugar de ninguém no céu, nem é o passaporte para o inferno. Ele apenas, e não mais que isso, é uma membrana que se desmancha no primeiro ato – e diga-se de passagem, o mais facinante momento – o sexo. Falta um pouco de questionamento, um pouco mais de dúvidas. Crer requer sentido, mas tantos creem sem saber porque acreditam.
Ceticismo.
A palavra já perdeu tamanho significado que é necessário a criação de pedaços de papel para se valorizar algo dito. Documentos e contratos, em sua grande maioria, refletem que o homem é incapaz de assegurar sua palavra. Promessa tornou-se significado de política, e política, de mentira. Escolhemos nossos representantes sabendo de suas desonestidades, mas mesmo assim nos apegamos à eles com unhas e dentes. Quando as desgraças ocorrem, amaldiçoamos a tudo e a todos. Mal sabendo que é completamente nossa, e só nossa, que ele esteja no poder.
Amor se tornou sinônimo de idiotice, na contemporaneidade. Sobra-nos ter que conviver com a paixão e os seus derivados – os interesses múltiplos. Talvez alguns poucos, mínimos e agraciados, possam desfrutar desse sentimento magnífico, e ao mesmo tempo sedutor. Enquanto os outros acham que amam, e amacebam-se com falsas emoções. Amizade, cumplicidade, tudo se inverteu.
Família é estatus, não mais união.
Namoro tornou-se sexo, diversão.
A inversão vai acontecendo cada vez mais e mais, pela falta de dúvidas do povo. Que se acostuma com o que é bom e está na moda. Os maiores gênios vão se acabando num cenário de doentes, desistindo dos próprios planos para – ou viverem só, que ainda sim é mais digno – ou se entrelaçando com o mundo, quando deixam de ser gênios.
Fim. Ponto final.
Afirmo que meu interesse pessoal em se tornar mais um se acabou. Não vou mentir em afirmar que aprecio algumas coisas boas que modernidade nos trouxe, como a liberdade de forma geral. Só afirmo que meus valores continuam “na velha guarda”.
Sim, sou cético. Até demais. Chego a ser ignorante em alguns momentos. Mas tudo isso com um intuito maior, de preservar a minha integridade moral e filtrar as centenas de milhares de informações que me engolem todos os dias. Cada qual defendendo sua religião, sua fé, sua doutrina mística e os eternos rituais que nos proporcionariam paz ou a entrada em algum lugar sagrado e maravilhoso.
Eu não.
Prefiro questionar tudo o que eu vejo, garantindo um aprendizado mais sólido e mais embasado. Sei como eu sou e porque eu sou.
Talvez eu seja mais um maluco, sei lá.
Ou um excêntrico.
Mas de verdade, e isso pode até soar um tanto arrogante – eu até gostaria que houvesse um incêndio.
Pois teria certeza que sou uma das poucas agulhas desse palheiro.
Yerick Douglas
Nossa...ótimo texto. Concordo com a maioria das coisas aí. Não creio que seja cética. Mas, opino demais e isso não é muito legal nos dias de hoje...=**
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