segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Lobo solitário


O traidor, o pária. Expulso da própria família por pertencer a uma condição adversa. Talvez presas menores, deixando-o como o peso morto para seus companheiros de círculo. Melhor ainda, possa ser que tenha nascido com uma pelugem diferente, o que dificultaria o seu reconhecimento entre os outros da própria raça. Uma cicatriz, uma marca que classifica como o perdedor da sua honra, da sua glória, da sua pátria.
Vivendo por entre relvas, esgueirando-se dos mais fortes. Saudades possui das brincadeiras com os amigos, das caçadas aos maiores animais. Agora, limita-se a comer pequenos infelizes que mal possuem poder de fuga. Infeliz do canino que faz regime na própria dieta selvagem. Por entre noites, a lua brilha alto no céu, mas o seu uivo já não é mas tão belo o quanto fora algumas vezes antes. A lua já não tem mais tanto brilho, viver já não tem tanto sentido.
Tornando-se forte por próprio méritos, com feridas ardentes de batalhas, escondendo-se, atacando. A vida tornou-se seu inferno particular, com qual não consegue dividir seus méritos e nem os seus fracassos; pois se sente só, mesmo estando na multidão da mãe natureza. Cobre seu rosto com folhas, para que o seu verdadeiro ser nunca apareça.
Sente-se somente preenchido quando permanece no alto das colinas, sobre as rochas; onde fica perto dos céus, perto das estrelas e das nuvens. E cochila sobre as pedras, tal qual se parecem com si, com o seu partido e despedaçado coração. Sentiu falta daqueles que já se foram, sentiu pena de si. A vontade de encontrar uma alma gêmea, que o pudesse fazê-lo completo já escorreu pelas lágrimas do pobre lobo, pelas desavenças com o que já passou.
Incompleto, sem destino, sem lugar. Percebeu que os homens vivem nas cidades, engolindo tudo aquilo que surge em seu caminho; criaram o vínculo mais forte, mesmo que para eles seja algo utópico de conseguir. O amor. Os outros vivem sobre o verde, com irmãos que voam pelos céus e constroem os seus ninhos; alguns vivem sobre as águas, alimentando-se de sal e das ondas do oceano. Todos possuem famílias, todos possuem suar partes, suas metades.
Enquanto que ele lamentava-se de ter sido expulso das suas origens, injustamente. Uivou berrando, pedindo à quem quer que fosse que o desse uma ajuda, que aliviasse a sua dor. Que o matasse, que o deixasse em paz ao menos uma vez na sua vida. Consecutivos choros, até que uma voz surgiu do seu íntimo, e vez melodia em seus ouvidos.
Ouviu cada fragmento de palavra, observou os seus semelhantes que já partiram para o outro lado. Cada faísca etérea de espíritos dos homens, dos animais. Poderia estar só naquele lugar, mas enquanto tivesse a si mesmo, haveria de ter esperanças.
Paixão, fogo, ira. Controlou-se, e uma lágrima despencou pelo seu rosto.
Sinto-me só. Infeliz, inquieto. Entretanto, existem no mundo tantas almas abandonadas. Tantas saudades ansiosas para serem matadas. Não preciso de um espaço pré-determinado para viver. Farei cada centímetro ao meu redor o necessário para preencher-me por completo.
Pois eu, apesar de tudo, sou livre.
Eu sou meu lar.

Yerick Douglas

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Revivência


Ele.
Passaram séculos, eternidades desde o último encontro. Já não sabia mais como era sentir o coração pulsando e nem sua pele suar, frente a face mais bela que houvera conhecido no planeta. Em contrapartida, olhos que flertavam e desejavam arduamente seu corpo, mas sem um pingo de emoção.
Intelecto possuia bastante. Talvez fosse a parte mais atraente do seu corpo. Sua forma de pensar, sua maneira de agir, sua forma de sorrir. Amigos, muitos. Mas sempre faltava algo a mais na sua vida, uma flor vermelha que apimentava a relação, cabelos que substituíam as garrafas e os incontáveis maços de cigarro.
Sim. O álcool. O substituto do amor. A maneira mais fácil e prática de um homem demonstrar tristeza e suas falhas emocionais. A perda do raciocínio e do equilíbrio [fisiológico], pois o emocional já havia sido extinto há tempos passados. A fumaça, nem tanto. Acompanhava cruelmente suas dores solitárias, servindo mais como um colega que repete clichês e põe a cabeça ao ombro, por conveniência e demonstração de afeto.
Sua vida tornara-se opaca, sem vida, sem cor. As moças não tinham mais graça, as festas não tinham mais som. Conhecer outras passou a ser rotina na tentativa do esquecimento, e não uma forma de depositar seus sentimentos. Parara de chorar, parara de pensar. Existia apenas o corpo, pois a alma já se desintegrara.
Contou os dias para o fim do sofrimento. No seu rosto, lágrimas metafóricas escorriam, da mesma forma que os pingos do céu; que caiam disformes, molhando a rua, molhando seu corpo, molhando a sua trajetória. Levou flores, mesmo sabendo que ela detestava. Levou chocolates, mesmo sabendo que ela reclamara. Levou o seu coração, que há anos não acelerara.
Gritou o seu nome, livrou-se da dor.
Ficou a mercê, do amor.
E esqueceu-se do tempo que passou.
Ela.
Só contou os primeiros dias, depois do triste fim. Tentou esquecer o estúpido homem que um dia falou palavras bonitas e expôs, mesmo que para ela fosse mentira, as suas emoções. Como acreditar naqueles que são taxados de safados, de hipócritas e machistas?
Ele não poderia ser diferente, e o tratamento foi igual. Livrou-se das fotos e dos presentes, comendo doces e ouvindo a música que um dia marcou o relacionamento. Queimou as pelúcias e os cd’s. Ligou para as amigas, aumentou sua dívida, queria sair.
Conheceu outros rapazes, entregou-se a outros rapazes. Por ódio, mentira, aflição. Queria provar para si mesma que era capaz de superar um idiota do outro gênero, encontrar alguém que fosse capaz de suprir com melhor qualidade as necessidades que sempre tivera. Entretanto, os pingos que caíam do seu rosto não eram ideias, eram reais. Manchavam a maquiagem e afogavam as esperanças.
Sentada no seu quarto, revivendo as pinturas dos grandes momentos e abraçando os restos dos bichos fofinhos, chorou. Chorou ao ouvir o seu nome ser gritado da parte de baixo da sua casa. Não acreditou e olhou o celular. Mais de meia-noite. Só uma pessoa seria tola o bastante para ir tão longe e lutar por ela.
Ele.
Ensopado pela chuva, carregando flores toscas e uma caixa de bombons baratos. Jogou tudo para o alto, entregando-se no beijo apaixonado, nas línguas que iam e vinham, como o amor apaixonado suportado pela cama. As garrafas não existiam mais, nem os ursinhos. A fumaça era substituída pelo vapor do suor e os cd’s, pela orquestra da noite.
A chuva molhava a janela, que molhava a tela da vida, que filmava tudo o que sozinhos haviam passado juntos. Enfrentar a ausência, a solidão, a perda. Unidos a noite inteira, parando somente quando as nuvens brancas pintaram o céu e libertaram as estrelas. As pernas estavam cruzadas, as mãos afagavam as peles lisas e rugosas.
Eu nunca vou te abandonar, porque eu te amo.
Adormeceram juntos, para sempre.

Yerick Douglas

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Champagne e chocolates


Como é fácil deixar alguém feliz. Um brinde enorme ao narcisismo, meus amigos. Nesse mundinho, poucas coisas deixam o homem tão feliz como apreciar uma boa homenagem. Seja através de palavras, através de conselhos, presentes, cartas. Chegamos ao ápice do egoísmo, onde o bom mesmo é ser taxado de difícil e complicado.
O bonito é ser diferente. Não no sentido da originalidade, mas naquele sentido mais abrangente, de ser excêntrico, confuso. De negar a felicidade, reclamar da vida e viver em depressão. Deixar de lado a sua verdadeira personalidade e viver atrás de uma máscara, exibindo um conteúdo que nem é seu de verdade. Tornar-se o mocinho, o indefeso.
Existem tantas pessoas no planeta que dariam a vida para serem felizes, quando realmente apresentam problemas difíceis. Uma família envolvida com álcool, drogas, tabagismo. Um irmão no meio do crime, filhos duramente deficientes. Enquanto a outra grande maioria, em seu conforto de classe média, acha divertido apresentar incompatibilidade com o resto da sociedade. Inventam problemas, entristecem-se por amores mal resolvidos, vivem às margens do passado.
Para os poetas, nada mais fácil do que passar cinco minutos da sua vida escrevendo um texto metafórico, e ao mesmo tempo generalista, falando de coisas bonitas e naturais, relacionando tudo com a pessoa. Observar atentamente uma peculiaridade da mesma, e comparar com alguma imagem bela, algo hipotético. No fim, o que resta é um texto com palavras rebuscadas, vago, sem emoção alguma, e bem prático de ser feito. Resultado: um idiota feliz.
Pois já passou o tempo da poesia escrita com sangue. Agora, restam as pontas de canetas e os interesses múltiplos, nas quais outros tantos chamam de amor.
Amor?
A paixão surge através do proveito e nutre-se através de lucros. Afinal de contas, ninguém precisa mais de um sentimento verdadeiro para viver hoje em dia. Nem tampouco o mínimo de intelectualidade. Basta apenas apertar algum botão que tudo magicamente se transforma, transportando o usuário para um mundo de praticidade e mecanicismo.
As estrofes viraram parágrafos. Os versos, orações.
E até as orações já foram crucificadas pelos hipócritas que deitam a cabeça no travesseiro à noite e rezam alguma espécie de mantra sagrado, imaginando que tudo amanhecerá da forma perfeita como ele sempre sonhou. São os judas da nova geração; os traidores dos sentimentos, os apedrejadores das verdades.
No fim, todos não passam de narcisistas.
Egoístas.
Pensei até em comprar uma deliciosa caixa de chocolates e uma caixa de espumante para celebrar algo importante essa noite. Li algumas poesias melancólicas, outras sarcásticas. Ri de algumas bobagens, falei de coisas importantes.
Sento na madrugada, releio alguns textos e gargalho frente a tantas bobagens que falei e de tantos risos que arranquei.
Se é fácil ser assim tão feliz, acho que amanhã farei um texto em minha própria homenagem. E o título será muito humilde: “A magnífica mente brilhante”.



Yerick Douglas

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Tempo e o Silêncio


O tempo não é relativo, as pessoas os são. Em nossos comportamentos pormenores, tentamos medir e classificar essa instância magnífica. Nos arrependemos de nossas frustrações, aproveitamos os nossos acertos, enquanto ele permanece linear, imutável.
Como o juiz de nossa sentença, ele é o mentor responsável pelos nossos castigos, em situações que devemos raciocinar um pouco mais sobre as atitudes; e o mesmo que nos abençoa, fazendo passar rápido os segundos, quando estamos em frente a uma companhia adorável. Para que dessa maneira, lembrarmo-nos do quanto curtos períodos são importantes em nossas vidas.
O tempo, senhor do nosso destino. Diferente das mentalidades inquietas do ser humano, que se arrepende dos fracassos, tentando inventar desculpas para corrigir feitos inescrupulosos; ele segue o seu caminho, forçando o derrotado a enfrentar os seus problemas, e erguer a cabeça, e sair como vitorioso.
O carrasco que nos pune. Frente a perda de um grande amor, é aquele que estará ao nosso lado ouvindo os nossos lamentos, enxugando as nossas lágrimas. É aquele que será alvo de todas as maldições faladas pelo sofredor. O responsável pela cura e reparo de um coração partido, decidindo quantos momentos serão responsáveis para que isto aconteça.
Forçando o nosso silêncio, o tempo ri de nossa face.
Como é tola a consciência e a mentalidade humana. Acreditar que é possível dar tempo ao próprio tempo. Em mais uma, de tantas outras tentativas frustradas de imaginar que ele é o responsável pela mudança de comportamentos.
Não. O tempo não muda comportamentos.
Atitudes mudam comportamentos.
O tempo apenas acompanha a nossa insensatez.
De imaginar que em cem anos tudo poderia estar mudado,
Quando ele poderia ser alterado em alguns segundos.
Gracioso, ele nos faz perceber a medida que próprio passa, do quanto é necessário em tudo. Nosso crescimento pessoal, nosso amadurecimento.
Se não fosse por essa força eterna, jamais saberíamos o quanto é importante valorizar os episódios inerentes a nós. Pensaríamos eternamente que tudo é estável, constante. Quando na verdade, estas é que são as forças relativas.
O tempo.
O silêncio que antecede os momentos de prazer e a agonia do sofrimento.
O mesmo tempo que nos faz agradecer cada segundo por aproveitar essa força chamada de vida.

- Tempos atrás, conheci uma pessoa fantástica. Por acaso do próprio destino ou por lei da causa e efeito. Pouco nos falamos a princípio. Posteriormente, pude perceber que dentre suas tantas qualidades, a inspiração poderia ser o seu forte. Como o próprio tempo, momentos foram necessários para que isso existisse.
Dedicado a Sarah Lima


Yerick Douglas