Ele.
Passaram séculos, eternidades desde o último encontro. Já não sabia mais como era sentir o coração pulsando e nem sua pele suar, frente a face mais bela que houvera conhecido no planeta. Em contrapartida, olhos que flertavam e desejavam arduamente seu corpo, mas sem um pingo de emoção.
Intelecto possuia bastante. Talvez fosse a parte mais atraente do seu corpo. Sua forma de pensar, sua maneira de agir, sua forma de sorrir. Amigos, muitos. Mas sempre faltava algo a mais na sua vida, uma flor vermelha que apimentava a relação, cabelos que substituíam as garrafas e os incontáveis maços de cigarro.
Sim. O álcool. O substituto do amor. A maneira mais fácil e prática de um homem demonstrar tristeza e suas falhas emocionais. A perda do raciocínio e do equilíbrio [fisiológico], pois o emocional já havia sido extinto há tempos passados. A fumaça, nem tanto. Acompanhava cruelmente suas dores solitárias, servindo mais como um colega que repete clichês e põe a cabeça ao ombro, por conveniência e demonstração de afeto.
Sua vida tornara-se opaca, sem vida, sem cor. As moças não tinham mais graça, as festas não tinham mais som. Conhecer outras passou a ser rotina na tentativa do esquecimento, e não uma forma de depositar seus sentimentos. Parara de chorar, parara de pensar. Existia apenas o corpo, pois a alma já se desintegrara.
Contou os dias para o fim do sofrimento. No seu rosto, lágrimas metafóricas escorriam, da mesma forma que os pingos do céu; que caiam disformes, molhando a rua, molhando seu corpo, molhando a sua trajetória. Levou flores, mesmo sabendo que ela detestava. Levou chocolates, mesmo sabendo que ela reclamara. Levou o seu coração, que há anos não acelerara.
Gritou o seu nome, livrou-se da dor.
Ficou a mercê, do amor.
E esqueceu-se do tempo que passou.
Ela.
Só contou os primeiros dias, depois do triste fim. Tentou esquecer o estúpido homem que um dia falou palavras bonitas e expôs, mesmo que para ela fosse mentira, as suas emoções. Como acreditar naqueles que são taxados de safados, de hipócritas e machistas?
Ele não poderia ser diferente, e o tratamento foi igual. Livrou-se das fotos e dos presentes, comendo doces e ouvindo a música que um dia marcou o relacionamento. Queimou as pelúcias e os cd’s. Ligou para as amigas, aumentou sua dívida, queria sair.
Conheceu outros rapazes, entregou-se a outros rapazes. Por ódio, mentira, aflição. Queria provar para si mesma que era capaz de superar um idiota do outro gênero, encontrar alguém que fosse capaz de suprir com melhor qualidade as necessidades que sempre tivera. Entretanto, os pingos que caíam do seu rosto não eram ideias, eram reais. Manchavam a maquiagem e afogavam as esperanças.
Sentada no seu quarto, revivendo as pinturas dos grandes momentos e abraçando os restos dos bichos fofinhos, chorou. Chorou ao ouvir o seu nome ser gritado da parte de baixo da sua casa. Não acreditou e olhou o celular. Mais de meia-noite. Só uma pessoa seria tola o bastante para ir tão longe e lutar por ela.
Ele.
Ensopado pela chuva, carregando flores toscas e uma caixa de bombons baratos. Jogou tudo para o alto, entregando-se no beijo apaixonado, nas línguas que iam e vinham, como o amor apaixonado suportado pela cama. As garrafas não existiam mais, nem os ursinhos. A fumaça era substituída pelo vapor do suor e os cd’s, pela orquestra da noite.
A chuva molhava a janela, que molhava a tela da vida, que filmava tudo o que sozinhos haviam passado juntos. Enfrentar a ausência, a solidão, a perda. Unidos a noite inteira, parando somente quando as nuvens brancas pintaram o céu e libertaram as estrelas. As pernas estavam cruzadas, as mãos afagavam as peles lisas e rugosas.
Eu nunca vou te abandonar, porque eu te amo.
Adormeceram juntos, para sempre.
Yerick Douglas
Interessante como você mistura fatos reais com algumas passagens metafóricas. Sinceramente, fiquei muito emociada ao ler os trechos em que você se refere a ELE, até por você conher mais ELE do que ELA. É curioso ver uma "sinopse" dessa história aos olhos de quem tá de fora e acompanhou tudo. Parabéns Patrick! Você através do " Doses de Prosa" me surpreende bastante, e como eu já havia dito, quem olha para você não imagina que dentro desse homem existe um coração com tamanha sensibilidade! Já sou sua fã cara :)
ResponderExcluirBjooo