terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A cada instante


A própria natureza a tanto tempo já lamentava seus pecados. Transformava em lágrimas secas os pingos enormes que caíam do céu, expressando a mesma tristeza que ele. Estava só. Já havia perdido as contas dos anos que passara só, e mais uma vez a sua vil maldição fez o efeito que fora cabida de fazer.
Estava em pé. Sentindo o frio líquido incolor escorrer por entre suas vestes, umidecendo sua pele, tornando-o mais gélido do que sempre fora. Mais um grande amor, mais uma grande decepção. Queria ter aproveitado o seu momento, sua dádiva, sua benção. Pensou que talvez a sua estadia na vida fosse somente com o intuito de se desenvolver intelectualmente, deixando de lado sua face emocional, seu caráter amoroso.
Em frente à lápide olhou mais uma vez para o nome da mulher que um dia esquentou suas noites solitárias em frente aos livros. Possuia o conhecimento para destrancar as portas do universo, mas nunca fora capaz de conquistar o mais puro sentimento sincero. Frio, desesperançoso, imaginou centenas de possibilidades que pudessem justificar a retirada da sua outra parte. Karma, pecado? Nada mais fazia sentido.
Cansou-se de ficar em pé e se ajoelhou. Passou seus dedos brancos pelas depressões causadas pelas batidas do martelo na lápide, como se mais uma vez estivesse passando sua mão pelo corpo nu da mulher dos seus sonhos. Fechou os olhos e respirou profundamente.
Alguns filetes saíam dos seus olhos e se embanhavam com os pingos da chuva que despencavam do céu. De nada adiantou passar tanto tempo construindo o que seria de melhor para a sua vida, se toda a sua vida foi retirada em poucos instantes. Rápido, instantâneo. Tão veloz quanto é a pressa do coração em se apaixonar e ser ludibriado pelo amor.
Triste.
Triste do homem que fora capaz de resolver equações em padrões de alta dificuldade. Triste do homem que viveu a maior parte da sua vida entre bibliotecas e seminários, de artigo em artigo, e jamais soube o que era o amor.
Pôs a mão em um dos bolsos internos do terno preto que custou uma fortuna. Retirou uma pequena garrafa de whisky, que a tanto tempo a levava para os eventos. Abriu lentamente a boca e pensou em como se sentiria ao jogar aquele líquido pela sua garganta. Lembrou das confusões por apreciar bebidas alcoolicas, das noites em bares, da sua felicidade.
Lembrou-se que um dia possuiu emoções, e que veio até aqui para dar adeus. Ergueu-se novamente e lentamente despejou toda a bebida que havia na garrafa sobre a lápide. Observou o álcool ser neutralizado pela chuva e pela triste emoção. A sua dor era tão profunda que por mais que chorasse e se lamentasse, seria impossível demonstrar fisicamente seus pesares.
Mais uma vez, e que pela pior que fora, retirou definitivamente o seu coração e depositou sobre a lápide, como fazem os sofridos quando trazem flores para os seus entes queridos, para descansarem em paz sob o aroma confortante das rosas. Sentiu o alívio percorrer seu cérebro e relaxar o seu corpo.
Estava só. Mas sempre esteve.
Estava quieto. Sempre estivera.
O maior erro da sua vida.
Achou que por mais feliz que fosse, seria eterno, infinito.
Infinitas como as chances de despencar raios dos céus.
Eterno como amar sem sofrer.
Deu as costas e foi embora. Esqueceu-se de si mesmo naquele lugar fúnebre e melancólico. Esqueceu-se do passado, das mágoas, da vida.
Caiu em si e viu porque tinha tanta resistência em conhecer e desenvolver algo com um outro alguém.
Sempre tivera certeza que por mais que amemos e, em algum momento, por mais efêmero e feliz que for, sentiremos na pele e na dura e cruel realidade o que é amar. É abdicar da própria vida para um bem maior. Amar de verdade, incondicionalmente.


Yerick Douglas

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